Pesquisadores fazem renúncia coletiva após Bolsonaro retirar homenagens
Um grupo de 21 pesquisadores anunciou neste sábado (6) que renuncia à condecoração da Ordem Nacional do Mérito Científico, concedida pelo governo Bolsonaro na última quinta-feira (4). Em carta aberta, eles atribuem a decisão à revogação da honraria dada a dois colegas, que julgaram como “perseguição a cientistas”. Na sexta-feira (5), pouco mais de 24 […]
06/11/2021 17h27, Atualizado há 688 meses
Um grupo de 21 pesquisadores anunciou neste sábado (6) que renuncia à condecoração da Ordem Nacional do Mérito Científico, concedida pelo governo Bolsonaro na última quinta-feira (4). Em carta aberta, eles atribuem a decisão à revogação da honraria dada a dois colegas, que julgaram como “perseguição a cientistas”.
Na sexta-feira (5), pouco mais de 24 horas após Jair Bolsonaro publicar decreto concedendo a Ordem do Mérito Científico a mais de 30 pesquisadores, o presidente voltou atrás e excluiu da condecoração Adele Schwartz Benzaken, ex-diretora do departamento de HIV/Aids do Ministério da Saúde, e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, autor de um estudo sobre a ineficácia da cloroquina contra a Covid-19.
A Ordem do Mérito Científico, fundada em 1993, tem como finalidade homenagear personalidades que “se distinguiram por suas relevantes contribuições prestadas à Ciência, à Tecnologia e à Inovação”. A admissão na ordem é prerrogativa do presidente da República, que avalia nomes apresentados pelo ministro das Relações Exteriores. A indicação dos membros é realizada por uma comissão, formada por três membros indicados pelo Ministério da Ciência, três membros indicados pela Academia Brasileira de Ciências e três membros indicados pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Na carta deste sábado, os pesquisadores declaram ser gratificante terem seus nomes presentes na lista, elaborada pela comissão em 2019, mas que a homenagem concedida por um governo que “não apenas ignora a ciência, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva”, não condiz com suas trajetórias científicas.
“Tal exclusão, inaceitável sob todos os aspectos, torna-se ainda mais condenável por ter ocorrido em menos de 48 horas após a publicação inicial, em mais uma clara demonstração de perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à Ciência e Tecnologia por parte do Governo vigente”, diz a carta”.
Os cientistas dizem também que “não compactuam com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência e tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade cientifica brasileira nas últimas décadas”.
Por fim, dizem que o ato de renúncia “nos entristece e expressa nossa indignação frente ao processo de destruição do sistema universitário e de Ciência e Tecnologia”.
Assinam o documento, em ordem alfabética:
Também neste sábado, um grupo de entidades das ciências sociais emitiu uma nota intitulada “Pela dignidade da ciência e em defesa da democracia”, em que citam dois principais motivos pela recusa da honraria dos cientistas ligados a elas. Assinam o documento a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBP).
O primeiro motivo elencado se refere às “políticas de desfinanciamento do atual governo que comprometem a ciência, a tecnologia e a inovação”. O segundo, ao “veto ideológico a dois renomados cientistas da saúde pública, no momento em que contamos com 600 mil concidadãos mortos na pandemia”.
Na sexta-feira, em carta enviada ao ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, o epidemiologista Cesar Victora já havia recusado a condecoração oferecida pelo governo. Victora seria promovido ao título de grão-Cruz — ele já havia recebido a honraria em 2018, no governo Michel Temer.
Na carta, Victora critica a resposta do governo à pandemia de Covid-19, a perseguição a cientistas e aos cortes nos orçamentos federais para a ciência. Ele escreve ainda que a revogação da condecoração a dois cientistas reforçou sua decisão de recusar a honraria.