Médico relembra histórias de políticos e pistoleiros
Quando aportou por Mogi, disposto a enfrentar os desafios de um curso de Medicina, na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), o cearense Melquíades Machado Portela trouxe na bagagem da memória as histórias que teve oportunidade de testemunhar ou, simplesmente, ouvir os mais velhos contarem em sua terra. No Ceará daquela época eram comuns as […]
12/11/2021 15h35, Atualizado há 689 meses
Quando aportou por Mogi, disposto a enfrentar os desafios de um curso de Medicina, na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), o cearense Melquíades Machado Portela trouxe na bagagem da memória as histórias que teve oportunidade de testemunhar ou, simplesmente, ouvir os mais velhos contarem em sua terra.
No Ceará daquela época eram comuns as histórias envolvendo as tradicionais rixas políticas entre coronéis que se dividiam, principalmente, entre a UDN e o PSD.
No vale-tudo eleitoral daqueles tempos, era comum um ou outro contratar um pistoleiro – denominado de “cangaceiro” – para pôr fim à vida de seu desafeto.
Como todo bom contador de causos, Melquíades costuma mostrar o milagre, mas nunca revelar o santo e muito menos o seu nome. E foi assim que um coronel dos mais famosos da política do interior cearense mandou buscar na capital do estado vizinho, um dos mais perigosos matadores daquela época.
Precisava dar cabo de um adversário que já começava a se tornar uma ameaça aos seus domínios.
E, por isso mesmo, estaria fazendo por merecer, na opinião do coronel, é claro, a sentença definitiva.
Logo que cangaceiro chegou à sua fazenda, o coronel o chamou até a rede da varanda, onde descansava após o almoço, e lhe entregou cinco fotos de seu adversário, em poses diferentes, para não ter perigo de acontecer algum erro durante a execução do serviço.
O matador recebeu as fotos, não perguntou nada, saiu da fazenda e desapareceu caatinga adentro. Ninguém mais o viu, pelo menos até um mês depois, quando ele voltou, cabisbaixo, muito triste. Acabrunhado mesmo.
O coronel estranhou e indagou: “Como foi? Fizeste o serviço?”.
Um tanto abatido, olhos fixos no chão, ele respondeu: “O senhor me desculpe, coronel. Mas dos cinco que o senhor me deu, eu só matei três…”
Outra de coronel
Mais uma história nordestina contada pelo estudante que virou médico, professor, vice-prefeito e prefeito de Mogi, além de diretor da Policlínica da UMC e pessoa de absoluta confiança da reitora Regina Coeli Bezerra de Melo e de seu falecido pai, o chanceler Manoel Bezerra de Melo.
O médico lembra que, certa oportunidade, um outro coronel cearense também decidiu contratar um pistoleiro para dar fim à vida de um desafeto seu.
Antes do “servicinho”, como o cangaceiro dizia, o coronel que conhecia a história de seu conterrâneo das cinco fotografias, decidiu entregar ao seu contratado apenas um retrato, mostrando bem a imagem do sujeito a ser eliminado, sem retoques.
“É esse o cabra safado que você terá de eliminar. Mas antes, uma pergunta: você conhece o sem vergonha?”
E o prestativo jagunço responde, de pronto:
“Olha coronel, conhecer, eu não conheço. Mas posso dizer ao senhor que já estou com muita raiva desse filho de uma égua!”