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Um ano após ter sido baleado em Mogi, Lucas Garcia canta como a drag queen Konny Lee

As fotos dessa reportagem mostram Konny Lee, drag queen mogiana que vem ganhando força. As fotos dessa reportagem também mostram Lucas Garcia, dançarino e professor que foi baleado há um ano, enquanto trabalhava, em uma quadra comunitária do Jardim Camila, em Mogi das Cruzes. Ele segue com a bala alojada no corpo. Mas já está […]

Por O Diário
03/12/2021 14h34, Atualizado há 688 meses

As fotos dessa reportagem mostram Konny Lee, drag queen mogiana que vem ganhando força. As fotos dessa reportagem também mostram Lucas Garcia, dançarino e professor que foi baleado há um ano, enquanto trabalhava, em uma quadra comunitária do Jardim Camila, em Mogi das Cruzes. Ele segue com a bala alojada no corpo. Mas já está bem de saúde, tanto física quanto mentalmente. Sem respostas, deixa no passado o que aconteceu e segue em frente. Como artista, como cantor. Como Konny Lee.

“Eu estou muito bem agora, em relação à saúde. Já estou 100% recuperado. Sabe, é bola para frente. Eu nem lembro mais, só quando o pessoal comenta. Tanto no corpo quanto na mente, já está bem sólido quanto a isso”, diz Lucas, que em nenhum momento perdeu o sorriso no rosto.

Apesar da fala, do sentimento e do otimismo, há sim algo que o faz lembrar do dia em que, de surpresa, levou um tiro. A bala que o atingiu continua alojada na região do tórax. 

“Eu continuo com ela e não vou tirar, porque o médico falou que só o faria se tivesse o número da arma”, explica ele. Ou seja, como até hoje não foi encontrada a arma do crime para conferência, não compensa, segundo informam os médicos à Lucas, retirar o projétil, já que ele não está prejudicando o organismo.

Não apenas a arma é desconhecida, como também o autor do crime não foi descoberto e responsabilizado. Um ano após a ocorrência, a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) foi novamente procurada por O Diário. A nota enviada é exatamente igual às da época: “por ora, não há novidades no caso. As investigações prosseguem”.

A reportagem também procurou a advogada Sonia Beraldo, que em 2020 se prontificou a representar oficialmente a vítima. Ela também não tem novidades sobre o inquérito.

Ou seja, Lucas está no escuro. “Vou ser sincero: não sei que investigação está prosseguindo, porque não estou sabendo de nada”, diz ele, que já ficou “pilhado” com a impunidade desse crime, mas hoje consegue “levar a vida em frente”.

A palavra “homofobia” vem à cabeça da vítima, que não quer “pensar nessa parte”. “Eu levo como alguém que não gostou do que eu estava fazendo lá na quadra, avalio como ódio, ao ponto de se incomodar com o que o outro está fazendo e querer acabar com aquilo”.

Embora já tenha superado, ele admite que o tiro mudou a vida como conhecia. Para sempre. “Eu nunca mais fui o mesmo depois disso. Em todo lugar que eu vou já saco de tudo, sei muito bem onde estou pisando. Tenho consciência de que pode acontecer tudo comigo em qualquer hora e em qualquer lugar, porque o ser humano é maldoso”.

Apesar disso, Lucas continua culturalmente ativo, continua artista. Além do “Movimente”, projeto de aulas de dança com a comunidade, que agora funciona em outros endereços, ele está dando aula em uma academia particular. É assim que “completa a renda”.

E não poderia ser diferente. Lucas Garcia é bailarino desde que se entende por gente. Quando criança, iniciou aulas de balé clássico e jazz e nunca mais parou. Mas desde os 15 anos ele também exerce outro trabalho corporal, como a drag queen Konny Lee. 

Com este nome, faz performances LGBTQIA+ principalmente relacionadas ao cenário pop e “bate cabelo”. Com este nome, ele também canta, com direito a apresentação recente na Casa do Jequitibá, no Centro de Mogi.
Desde que levou o tiro, muita reflexão passou pela cabeça de Lucas. Uma delas é relacionada à música. “Eu me entreguei ao trabalho da Kony Lee e estou sabendo lidar muito bem com isso. É como se eu, mesmo já tendo trabalhado com drag queen há muito tempo, e sendo professor há muito tempo, agora esteja conseguindo relacionar as duas, e dar atenção para essas duas partes, sem deixar uma inativa”.

Mesmo com uma bala alojada no corpo, ele então cumpre uma extensa agenda de aulas de dança enquanto assume a temporada como drag queen. Ao lado do cantor Léo Zerrah, lançará em breve um clipe, com direito a evento na casa noturna DigiClub. Esse show deve acontecer agora, no meio deste mês de dezembro. 

“Não tem muita drag que canta, a não ser as famosas, como Pabllo Vittar e Gloria Groove. Então busquei esse diferencial. A Konny canta bastante MPB, gosta de samba, bossa nova, MPB. E no momento, está preparando um disco”. Vem aí um álbum autoral de Konny Lee.

“Meu irmão, Matheus, é compositor e está me ajudando a fazer algumas músicas com minha identidade. Porém por enquanto estou fazendo cover. Geralmente faço à noite, projetos culturais como show de música popular brasileira, tanto as antigas como as novas, ou apresentação específica, como especial Gal Costa, Maria Bethânia ou músicas de axé, canções voltadas religião africana”.

Enquanto promete novidades para 2022, Lucas Garcia, que recebeu e continua recebendo apoio da classe artística local, faz questão de agradecer.  “Essa ajuda toda que eu tive já é gratificante demais e mostra quão forte somos quando estamos juntos e quantas pessoas boas tem no mundo para se ajudar. E sou só gratidão por isso”.

 

Relembre o caso

Quarta-feira, 9  de dezembro de 2020. 18h30. “Nossa, que absurdo!; Nossa, que absurdo!”. Esse é o refrão da música que toca na Arena Água Verde, espaço comunitário do Jardim Camila, em Mogi. Em uma das quadras, o bailarino e instrutor mogiano Lucas Souza Garcia, 23 anos, após ministrar uma aula de fitdance, continua ensinando alguns passos para quatro alunas. Com o som alto do funk, não foi possível ouvir o disparo de arma de fogo que o atingiu, na região do tórax, de surpresa.

O clima mudou completamente. Em poucos instantes, a energia do rebolado deu lugar para o pavor e o desespero. “Eu estava de costas e senti o impacto, a pressão, a dor. Havia muito sangue”, lembra a vítima, que reuniu forças para andar até o carro do pai, que jogava bola no local, e o socorreu à Santa Casa de Misericórdia.

Segundo  Lucas, nenhuma das pessoas – nem mesmo as que não estavam diretamente envolvidas em seus passos de dança – sabe dizer de onde veio o tiro. 

Sem suspeitos oficiais  e sem a arma do crime, não há muitas pistas. Em fevereiro deste ano, O Diário mostrou que um policial teria confirmado que esteve na casa de um homem tido como “averiguado” no boletim de ocorrência, mas teria relatado que ele não possuía uma arma. 

Embora o inquérito instaurado não tenha trazido respostas, Lucas conseguiu apoio da classe artística, que se mobilizou e promoveu eventos e protestos. O atendimento psicológico dele, por exemplo, foi custeado por uma “vaquinha”  organizada pela Frente Popular pela Cultura de Mogi.

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