Rapper, soldador, artista, pai: mogiano Niw Rapper celebra a vida em novo álbum
Agressividade e críticas são muito presentes nos discursos do rap. Mas os beats e rimas também dão espaço a reflexões sobre o amor, paternidade e vida. Descobrindo estes novos horizontes musicais, o mogiano Niw Rapper acaba de lançar o segundo álbum da carreira, o EP ‘Você Conhece Meu Trabalho?’. A pergunta do título tem duas […]
04/02/2023 08h07, Atualizado há 688 meses
Agressividade e críticas são muito presentes nos discursos do rap. Mas os beats e rimas também dão espaço a reflexões sobre o amor, paternidade e vida. Descobrindo estes novos horizontes musicais, o mogiano Niw Rapper acaba de lançar o segundo álbum da carreira, o EP ‘Você Conhece Meu Trabalho?’.
A pergunta do título tem duas respostas possíveis, já que Niw está falando de duas atividades. Se por um lado nos últimos anos ele se descobriu soldador profissional, por outro vem explorando musicalidade e sonoridade cada vez mais sólida.
Em 2020, em entrevista concedida a O Diário, Niw relatava já ter trabalhado em cozinhas, lanchonetes, lava-rápido e promotor de merchandising. “É difícil conseguir emprego. Cheio de tatuagem e sem paciência”, resume ele, agora, depois de um evento que mudou não apenas a vida dele como a do mundo inteiro: a pandemia de Covid-19.
Se ele não via muitas portas abertas no mercado de trabalho antes do novo coronavírus, durante os últimos anos então foi ainda mais difícil. “Se eu tivesse uma profissão, algo especifico para fazer, conseguiria me sobressair”, pensou ele, deixando o rap de lado por um momento.
Com o auxílio emergencial, Niw comprou uma ferramenta de solda pela internet. E nascia ali uma oficina, na garagem de casa, na Vila Pomar, em parceria com um amigo-irmão, Willian Costa de Paula.
O curso de soldador ele já tinha, assim como força de vontade. “Não fui ajudante de ninguém, infelizmente. Teria sido mais fácil. Mas eu mergulhei de cabeça nesse ramo e aprendi na marra”, conta ele, que passou os últimos anos não apenas soldando mas também fazendo móveis. Ou seja: sempre trabalhando com arte.
Como rapper, Niw poderia deixar de rimar, mesmo com ferramentas no lugar do microfone. Afinal, com um projeto aprovado por edital do Estúdio Municipal de Áudio e Música (Emam), ele precisava criar novas músicas.
Em ‘Niw’, EP lançado em 2020, ele estreou com versos escritos em anos anteriores. Era como uma porrada. Forte, agressivo e contundente, ele cantava o peso do racismo. Três anos depois, este tema infelizmente continua sendo presente. Mas a maturidade apresenta nova visão.
“Aprendi que o racismo, no Brasil, é silencioso. Algumas pessoas vão dizer que ele nem existe. Então a forma de combater também tem que ser assim”, conta Niw, que comemorou 30 anos de idade no dia do lançamento do novo EP.
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O mogiano já era pai em 2020, mas os últimos anos o ensinaram muito sobre a vida, inclusive sobre a relação com os filhos, Alicia Oliveira Bonifácio, de 8 anos, e Anthony Bonifácio, de 4. “Nesse CD, trago o que está dentro de mim, o que sou nas horas em que estou em casa. Então vou falar sobre como é ser pai, ensinar minha filha a fazer rap e cantar junto com ela”, adianta ele, que a O Diário, fez um “faixa a faixa”.
Na primeira música, ‘Meu Trabalho’, Niw mostra que agora, aos 30, tem resposta para uma pergunta que muito ouvia na escola: “o que você vai fazer quando crescer?”. Quando pequeno, o rap se mostrava um “hobby inquietante”, um sonho desestimulado pelos adultos. Mas agora não apenas a música é profissional como também a oficina – e ainda um emprego com carteira assinada, como soldador.
Já a segunda faixa, ‘Fazer Rap Me Faz Feliz’ é o momento mais íntimo do álbum. Niw canta com a própria filha, Alicia MC. E foi ela quem pediu. “Eu estava trabalhando na oficina, e quando entrei em casa, vi ela dançando, fazendo basicamente um freestyle. Depois ela me disse, baixinho: ‘pai, quero fazer rap’. Eu respondi: ‘então pega papel, caneta e senta aí’”.
Alicia foi dizendo como se sentia, e o pai a ajudou a encaixar as rimas. Depois veio a parte difícil, que é escrever a contrapartida. “Usei a parte dela para o refrão. Mas o que eu ia dizer para ela? Mó responsa. Demorei, mas escrevi que o mundo não é tão colorido assim. Tem a parte salgada da fita, existem pessoas ruins que vão querer o mal dela. Tem que ter fé em Deus, e eu vou protege-la. É minha missão de vida”.
A partir daí, já não há mais nada para esconder, então o EP se permite ir além do rap. Em ‘Só Vou se For Você’, Niw canta um “pagode/samba” com Valéria Custódio (que recentemente participou do podcast Plugado e lançou o álbum Miragem – clique aqui para ler a crítica deste trabalho). É um momento tranquilo, que “dentro do processo de criação do trabalho, retrata um dia de folga, de tomar cerveja, ouvir pagode e se apaixonar também”.
Continuando o clima relax, em ‘Se Acaba Ni Mim’ Niw se permite “falar sobre amor e sexo, mas sem falar sobre sexo” – fórmula parecida com a de 2P, outro rapper de Mogi. Até aqui ele vinha “escondendo essa parte love, esse romantismo nas letras”. Mas a vida, ah, a vida…
“Passei um período que queria voltar para um grande amor que tive, e quando consegui, me veio a inspiração de fazer esse som. O homem aprende a ser durão, a esconder os sentimentos, mas não tem que ser assim”, diz ele, com a caixa de pensamentos aberta, sendo ‘Demorô’ a próxima reflexão, sobre um “xodozinho”: o automobilismo e a cultura da velocidade, que pode coexistir com responsabilidade, sem colocar a vida em risco.
Falando em vida, nem sempre os planos dão certo. O rapper queria fazer uma cypher (música gravada com três ou mais MCs) com vários outros artistas. Ele entrou em contato com as pessoas, mas só recebeu retorno de uma delas. Tinha que ser assim, para que a parceria com Nobre Dan, de Suzano, ficasse tão boa quanto ficou ‘Cada Dia eu Suba Mais’, sobre o desejo de ascensão e paz.
Essa música dá abertura para a finalização do álbum, com ‘Do Jeitinho que Nasceu’, parceria com a também mogiana rapper Karen Santana (que recentemente fez show no Sesc Mogi e lançou singles como ‘Sol em Leão’). Observação importante: Niw e Karen estudaram juntos, e estavam há anos querendo gravar juntos. A espera valeu a pena: “veio essa pancada”, descreve o cantor.
Assim, ‘Você Conhece Meu Trabalho?’ termina com uma mensagem sobre amizade, mas não uma qualquer. É sobre quem “divide as alegrias e as tristezas”, sobre sentimentos íntimos e verdadeiros, assim como todo o álbum, que está disponível nas plataformas digitais, como o Spotify e o YouTube, onde há também videoclipes.