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No Centro de Mogi, uma intervenção poética ao ar livre

Quem passa em frente ao número 79 da Rua Nossa Senhora do Carmo, no Centro de Mogi das Cruzes, recebe um alento para o tão crítico momento de pandemia. Na instalação poética ‘Chuva de Pensamentos’, palavras penduradas em um guarda-chuva e poesias dispostas sobre o portão da Escola de Artes Ousadia, que está fechada durante […]

Por O Diário
10/03/2021 17h01, Atualizado há 688 meses

Quem passa em frente ao número 79 da Rua Nossa Senhora do Carmo, no Centro de Mogi das Cruzes, recebe um alento para o tão crítico momento de pandemia. Na instalação poética ‘Chuva de Pensamentos’, palavras penduradas em um guarda-chuva e poesias dispostas sobre o portão da Escola de Artes Ousadia, que está fechada durante a fase vermelha, promovem a reflexão e estimulam o pensamento crítico dos que param para ler.

Os versos são da escritora e agitadora cultural Carla Pozo, que pensou a instalação como uma “provocação poética do universo feminino, sentimentos e ações do dia a dia, por meio de uma linguagem lúdica”.
São, ao todo, 10 poemas, incluindo alguns premiados em concursos literários estaduais e nacionais. Entre os temas abordados há críticas sociais, mensagens de amor e até mesmo “uma pitada de sensualidade”, garante a autora.

O destaque, além das mensagens, fica com a simplicidade. Os textos são exibidos em papel sulfite colorido, e as palavras “resistência, amor, fé, criatividade” estão penduradas em um guarda-chuva comum.

“Talvez em outro momento não tivéssemos a liberdade de usar objetos tão simples. Recorreríamos ao acrílico, ao adesivo, estruturas mais caras. Mas agora a gente vê quanto a simplicidade tem sua função, e quanto consegue dialogar”, analisa Carla, que está há muitos anos a frente do movimento Entremeio Literário e pela primeira vez estreia uma exposição solo.

Uma das poesias fala da saudade de sair, mas não necessariamente para festas. Sair para, por exemplo, lavar a roupa. Outra fala do “peso da alma”, que “só queria ser leve”. Tem também uma que fala da importância do amor e da verdade. E assim segue a mostra, com reflexões e pensamentos “que podem alegrar o coração de alguém depressivo”.

Rápidos para ler, mas profundos em significado, os textos que seguem no mesmo endereço até o dia 31 de março, quando depois se tornam itinerantes e migram para outros espaços, têm agradado quem passa pelo local. “Tenho recebido elogios pela coragem de falar de leveza, o que não significa fazer pouco da dor do outro, pelo contrário”.

Parceria
Quando decidiu “mostrar a Carla artista, e não só a produtora”, a idealizadora formatou uma parceria com o Núcleo de Arte Ousadia. A mostra funciona como uma vitrine dos trabalhos artísticos realizados no local, ainda que desde semana passada eles estejam sendo realizados de maneira online.

Para Erika Capella, representante do Ousadia, a instalação poética ‘Chuva de Pensamentos’   representa “um carinho muito grande”, que vai além de uma “estética bonita”. “Estar com a casa fechada é muito triste, mas a instalação de Carla está lindíssima”.

O Ousadia, aliás, retornou com programação de atividades presenciais em janeiro, com recursos da Lei Aldir Blanc via edital municipal. A verba permitiu a organização do caixa, que foi esvaziado na sequência, devido a compromissos como o aluguel da casa de número 79, na Rua Nossa Senhora do Carmo.

Com doações de amigos, o grupo conseguiu sobreviver em fevereiro, e agora em março retomou as atividades online. “Quando terminamos as oficinas gratuitas, havia demanda de gente que queria continuar, então voltamos com oficinas presenciais de teatro e circo, para público muito restrito. Com a fase vermelha as aulas passaram a ser online, e estamos com inscrições abertas”, finaliza Erika.

Outras informações sobre a exposição de poesias e sobre outras atividades artísticas estão disponíveis nas redes sociais de Carla Pozo e do Núcleo de Cultura Ousadia.

 

Leia um dos poemas: ‘Aborto’

Abortei.

Tudo que não queria.

Não sou obrigada a regar

semente que não semeei.

Abortei.

O medo que sabotava.

A dúvida que congelava.

Opiniões,

querendo semear em mim

desejos que eu não tinha.

Fortaleci.

Cuidei de mim.

Escutei a minha voz arraigar.

Aí sim!

Pari.

A luz que estava em mim.

(Carla Pozo)

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