Conheça o autor de “Cavalo Preto”, o mogiano Anacleto Rosas Júnior
A novela Pantanal está terminando, mas as rodas de viola, realizadas à noite, aos pés das fogueiras e movidas a churrasco e cachaça da melhor qualidade, trouxeram de volta uma moda caipira que já havia marcado época no rádio e durante a primeira versão da mesma novela, mas que estava esquecida por muitos e desconhecida […]
01/10/2022 07h43, Atualizado há 689 meses
A novela Pantanal está terminando, mas as rodas de viola, realizadas à noite, aos pés das fogueiras e movidas a churrasco e cachaça da melhor qualidade, trouxeram de volta uma moda caipira que já havia marcado época no rádio e durante a primeira versão da mesma novela, mas que estava esquecida por muitos e desconhecida pelos mais jovens.
“Cavalo Preto”, a preferida do patriarca José Leôncio (Marcos Palmeira), presença obrigatória nas cantorias pantaneiras, poucos sabem, é de autoria de um mogiano, Anacleto Rosas Júnior, que nasceu na cidade no dia 18 de julho de 1911 e faleceu em Taubaté, em 4 de fevereiro de 1978.
Ao longo de 67 anos de vida, Anacleto tornou-se um dos nomes mais respeitados da música caipira de raiz, não apenas como compositor de cerca de 430 músicas, gravadas e regravadas por artistas de sucesso, mas também como cantor, produtor musical e apresentador de rádio.
Nos últimos anos de sua vida, já morando no Vale do Paraíba, depois de viver por pouco tempo em Mogi e depois em Poá e São Paulo, entre outras cidades, ele cativava os ouvintes da Rádio Difusora de Taubaté, com os programas “Manhãs Sertanejas” e “Serão de Caboclo”, que abriam e fechavam a programação da emissora.
Era logo no início do “Manhãs” que ele apresentava o bordão que lhe deu fama entre os moradores da zona rural do Vale do Paraíba, até aonde chegavam as frágeis ondas médias da rádio:
“Acoooorda muierada! Vão prepará o leite do marido que ele tem que trabaiá! Bota a garrafa pra fora que o caminhão vai passá!”
Mogi e Poá
Terceiro filho do casal Anacleto Rosas e Maria Bourdon, ele espanhol e ela italiana, o pequeno Júnior viveu pouco tempo em Mogi, onde nasceu. Ainda muito pequeno, mudou-se com a família para Poá, onde seu pai era dono de um armazém.
Foi lá que o menino logo deu mostras de que seguiria a carreira musical. Ainda jovem, ganhou fama como seresteiro, cantador de modas de viola e desafios e passou a compor suas primeiras músicas, com ajuda de um violão, que ele aprendeu a tocar com incrível facilidade.
Por volta de 1930, ele já compunha de tudo: de rancheiras a valseados; de sambas até tangos.
Sempre envolvido com a música, ele se casou, em janeiro de 1938, com Clementina Romano Rosas, mas apenas no civil, segundo consta, por “questões burocráticas”. O casamento no religioso só viria 25 anos mais tarde, já em Taubaté, quando os dois comemoravam Bodas de Prata.
Quatro anos após o casamento civil, o casal trocou Poá por São Paulo, para que Anacleto pudesse se aproximar definitivamente do mundo artístico. E foi como gerente do Cine Broadway, em 1942, que ele conheceu o produtor e apresentador de rádio Ariowaldo Pires, mais conhecido como Capitão Furtado, que viu no jovem rapaz um talento a ser lapidado.
Foi Furtado quem apresentou Anacleto Rosas à dupla Palmeira e Piraci que, em 1944, gravou pela Continental a sua primeira composição, “Promessa de Caboclo”, que foi parar no lado B, de um 78 rotações, aqueles discos pesados que comportavam apenas duas faixas, uma de cada lado.
Dois anos mais tarde, o trabalho do compositor passou a ser definitivamente reconhecido. Brinquinho e Brioso gravaram a moda de viola “Caboclo de Azar”, o recortado “Fartura” e a toada “Linda Serrana”. Logo em seguida, os já famosos Tonico e Tinoco gravaram a valsa “Cortando o Estradão”, mais tarde regravada por Sérgio Reis e Almir Sater como trilha sonora da novela global “O Rei do Gado”.
Os registros fonográficos da época indicam que foi em 1945 que a música “Cavalo Preto” se tornou conhecida País afora nas vozes de Palmeira e Luizinho. Àquela altura, Anacleto Rosas passou a ser identificado por suas músicas, apresentadas num estilo conhecido como “moda campeira”. Segundo o pesquisador Ayrton Mugnmaini Jr., Anacleto Rosas teria sido “o pioneiro do gênero moda campeira, tipo de canção que se tornou comum no Sul e Sudeste do País, cujo ritmo lembra a guarânia ou o rasqueado, mas com um andamento mais lento”.
“Cavalo Preto”, que serviu de tema para a primeira versão da novela Pantanal, apresentada pela hoje extinta Rede Manchete, acabou ganhando interpretações nas vozes de Sérgio Reis, Tonico e Tinoco, Inezita Barroso, até se tornar uma das mais gravadas dentre as músicas caipiras do País, ganhar uma versão em japonês e um filme do mesmo nome.
Anacleto não parou por aí. Com incrível facilidade para compor coisas simples e que agradavam em cheio ao público, ele foi autor de sucessos até hoje reverenciados dentro da música caipira de raiz. São deles músicas como “Fogo no Rancho”, em parceria com Elpídio dos Santos – outro compositor do Vale do Paraíba – que foi tema do filme Jeca Tatu, de Mazzaropi; “Aparecida do Norte”, um cururu gravado por Tonico e Tinoco, aproveitado para trilha sonora do filme Nossa Senhora Aparecida; “Baldrana Macia”, gravada por Luiz Gonzaga e inúmeras duplas sertanejas.
Já em 1961, Pedro Bento e Zé da Estrada colocaram em disco aquela que iria se transformar num dos clássicos da música cabocla, o valseado “Três Boiadeiros”, que conta os percalços enfrentados por integrantes de uma comitiva, ao longo de uma longa viagem tocando uma boiada de animais bravios.
Renato Teixeira já gravou pelo menos duas composições de Anacleto Rosas, “Mestiça” e “Flor Matogrossense”, em 1993.
Somente Tonico e Tinoco, a chamada “dupla coração do Brasil” e uma das mais respeitadas do caipira de raiz, gravaram 42 músicas do mogiano (Veja abaixo a relação de algumas das mais conhecidas músicas de Anacleto Rosas).
No ano 2000, a poderosa gravadora Som Livre relançou em CD o disco “Rancho Vazio – Relembrando Anacleto Rosas Júnior”, no qual Tonico e Tinoco interpretam 12 composições de autoria do compositor mogiano. Entre elas, “Triste despedida”, “Filho de Mato Grosso”, “Cavalo Preto” e a música que dá título ao disco.
Atualmente, “Cavalo Preto” voltou a fazer enorme sucesso, embalada pela novela da Rede Globo. Nas plataformas de streaming a procura pela música teve um aumento extraordinário: o número de plays no Spotify cresceu 931% nos dois primeiros meses de exibição do remake. Já no YouTube, a busca aumentou mais de 3.000%, a ponto de o bordão “Toca Cavalo Preto aí!” – dito por Zé Leôncio ao pedir a música que lembrava seu pai, o Velho Juventino, nas cantorias de Pantanal – substituir o inevitável “Toca Raul!” nas grandes festas sertanejas do interior de todo o País.
Em Taubaté
O mogiano Anacleto Rosas gostava de encarar desafios. Em 1960, ele foi convidado a dirigir o Selo Sabiá, a vertente sertaneja da Copacabana Discos. E foi lá que ele lançou novos talentos que fizeram muito sucesso, como a dupla Belmonte e Amaraí.
Ficou famosa uma experiência feita por Anacleto Rosas com o engenheiro industrial Johann Dalgas Frisch, que gravava o canto de pássaros raros da Amazônia, entre eles o lendário uirapuru, que os quais serviam como acompanhamento para músicas brasileiras orquestradas. Foi Anacleto quem dirigiu a gravação de um disco épico, o “Canto dos Pássaros do Brasil”, que garantiu o pioneirismo na junção das músicas de orquestras com cantos de pássaros gravados em plenas matas brasileiras.
Em 1952, Anacleto Rosas foi morar em Taubaté para trabalhar na Rádio Difusora, onde apresentava dois programas de modas caipiras. Lá, ele permaneceu até se aposentar, tendo sido substituído pelo filho, Luiz Rosas Sobrinho, que conduziu o programa até próximo de sua morte, em 31 de agosto de 2019.
Em Taubaté, Anacleto Rosas lançou a primeira dupla sertaneja da cidade a se profissionalizar: Souza e Monteiro. Ele também lançou o Trio Turuna, que era integrado pelo filho Luiz, a filha Cleusa Rosas, e Arraiel Theodoro do Prado, que ele descobriu no norte do Paraná. Com o trio, Anacleto ainda excursionou por várias cidades e estados brasileiros.
Em 1978, aos 67 anos, Anacleto Rosas Júnior, já casado também no religioso com Clementina Rosas, no Santuário de Santa Teresinha, em cerimônia realizada pelo cônego Cícero de Alvarenga, e pai de Luiz Rosas Sobrinho, Rubens Rosas e Cleusa Rosas, faleceu em Taubaté, onde está sepultado no Cemitério Municipal.
“A obra de Anacleto Rosas Júnior, por sua riqueza de imagem e simbologia sertaneja é comparável à de Catulo da Paixão Cearense”, afirmou o escritor mogiano João Anatalino, numa das raras homenagens prestadas ao compositor da cidade, pelo Lions Club, à época por ele dirigido.
Sucessos de Anacleto Rosas
Aqui, algumas composições de Anacleto Rosas Jr.:
• A Cruz Do Caminho (Anacleto Rosas Jr. – Arlindo Pinto)
• A Fronha (Belmonte – Anacleto Rosas Jr.)
• A Morte do Canoeiro (Anacleto Rosas Jr.)
• A Mulher do Canoeiro (Elpídio dos Santos – Anacleto Rosas Jr.)
• Aparecida do Norte (Dia do Sertanejo) (Anacleto Rosas Jr. – Tonico)
• Baldrana Macia (Anacleto Rosas Jr. – Arlindo Pinto)
• Boi De Carro (Anacleto Rosas Jr. – Tinoco)
• Boi Penacho (Anacleto Rosas Jr.)
• Brasil (Arlindo Pinto – Anacleto Rosas Jr.)
• Burro Picaço (Anacleto Rosas Jr. – Geraldo Costa)
• Caboclo (Capitão Barduíno – Anacleto Rosas Jr.)
• Cavalo Preto (Anacleto Rosas Jr.)
• Cortando Estradão (Anacleto Rosas Jr.)
• Filho de Mato Grosso (Anacleto Rosas Jr.)
• Flor Cobiçada (Anacleto Rosas Jr. – Sulino)
• Fogo no Rancho (Anacleto Rosas Jr. – Elpídio dos Santos)
• Londrina Rainha (Anacleto Rosas Jr.)
• Luar de Aquidauana (Zacarias Mourão – Anacleto Rosas Jr.)
• Mil E Quinhentas Cabeças (Anacleto Rosas Jr.)
• Moda do Pescador (Anacleto Rosas Jr. – Serrinha)
• Não Sinto Saudade (Anacleto Rosas Jr. – Patativa)
• Não Sou Gaúcho (Anacleto Rosas Jr. – Torino)
• Noite De Lua (Zé Cocão – Anacleto Rosas Jr.)
• Os Três Boiadeiros (Anacleto Rosas Jr.)
• Peito Magoado (Anacleto Rosas Jr.)
• Promessa De Caboclo (Anacleto Rosas Jr.)
• Querência Amada (Anacleto Rosas Jr. – Luizinho)
• Rancho Vazio (Anacleto Rosas Jr. – Arlindo Pinto)
• Recado (Anacleto nacleto Rosas Jr. – Tonico)
• Romaria (Anacleto Rosas Jr. – Dois Turunas)
• Solteiro É Mió (Anacleto Rosas Jr.)
• Triste Despedida (Tonico – Tinoco – Anacleto Rosas Jr.)
• Trucada (Anacleto Rosas Jr. – Limeira)
• Zé Valente (Anacleto Rosas Jr.)
Cante com os violeiros, a preferida do Zé Leôncio
Cavalo Preto
(Autor: Anacleto Rosas Jr.)
Tenho um cavalo preto por nome de ventania
Um laço de doze braças do couro de uma novilha
Tenho um cachorro bragado que é pra minha companhia
Sou um caboclo folgado, ai eu não tenho família.
No lombo do meu cavalo eu viajo o dia inteiro
Vou de um estado pra outro, eu não tenho paradeiro
Quem quiser ser meu patrão me ofereça mais dinheiro
Eu sou muito conhecido por esse Brasil inteiro.
Tenho uma capa gaúcha que troquei por boi carreiro
Tenho dois pelegos grandes que é pura lã de carneiro
Um me serve de colchão, o outro de travesseiro
Com minha capa gaúcha eu me cubro o corpo inteiro
Adeus que eu já estou partindo vou posar noutra cidade
Depois de amanhã bem cedo quero estar em piedade
Deus me deu este destino e muita felicidade
Onde eu passo com meu preto deixo rastro de saudade