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Concerto e livro situam Mogi na história da música colonial do Brasil e Portugal

Com bancos e cadeiras lotadas, a Igreja da Ordem Primeira do Carmo rebobinou e atualizou 300 anos da história da música brasileira e portuguesa na noite de quinta-feira (8) com a primeira apresentação pública das composições executadas no concerto As Solfas de Mogi das Cruzes e de outras obras brasileiras do século XVIII e o […]

Por O Diário
10/09/2022 07h07, Atualizado há 689 meses

Com bancos e cadeiras lotadas, a Igreja da Ordem Primeira do Carmo rebobinou e atualizou 300 anos da história da música brasileira e portuguesa na noite de quinta-feira (8) com a primeira apresentação pública das composições executadas no concerto As Solfas de Mogi das Cruzes e de outras obras brasileiras do século XVIII e o lançamento do livro As Solfas de Mogi das Cruzes – edições musicais e apontamentos históricos (2022). Foi noite única pela excentricidade e potência da pesquisa e de sonho “plasmado” em realidade surgido de um bate papo entre o produtor cultural Déo Miranda e o arquiteto Ubirajara Nunes Pereira,  o Bira, à época responsável pelo Arquivo Histórico de Mogi das Cruzes, sobre os manuscritos musicais descobertos na Província Carmelitana de Santo Elias, no conjunto do Carmo de Mogi das Cruzes, na década de 1980, e mantidos pelo município seiscentista que detém, há 40 anos, o mérito de possuir, ao que se saiba até agora, os mais antigos registros físicos da música colonial brasileira.

Assim é a história. Belo dia de trabalho do pesquisador e professor Jaelson Bitran Trindade (com seus 20 e poucos anos), integrante do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico (Iphan), que conduzia o processo de tombamento do Carmo mogiano como patrimônio histórico nacional, abre luz para que se ateste, por meio da ciência, o que mogianos e pesquisadores, como o historiador Jurandyr Ferraz de Campos (1936-2019) intuíam: as riquezas que a cidade preserva do passado do Brasil. 

O pulo na história, no caso, ocorreu com a análise gabaritada dos manuscritos (as solfas) de obras de autoria anônima, porém, com chances de terem sido assinadas por integrantes do conhecido Grupo de Mogi das Cruzes, músicos que aqui viveram no século XVIII, e a chancela sobre a autenticidade das folhas musicais consideradas como os mais antigos registros físicos daquela época (sete delas encontram-se extraviadas).

Era sobre a urgência de se preservar esse tesouro que Bira falou com Déo. Este, como contou ao público na noite do lançamento, após conversar com Jurandyr e o pesquisador Odair Aparecido de Paula (que assina o livro ao lado do maestro Rubens Russomanno Ricciardi, professor da Universidade de São Paulo – USP), inscreveu em dois dias o projeto sobre as solfas mogianas no Prêmio Rumos, do Itaú Cultural.

Vencido o edital 2019/2020, a pandemia afetou o ritmo de pesquisas. Agora, esse registro será disponibilizado a orquestras e outros interessados na difusão do que era criado pelos músicos e compositores brasileiros com influência de Portugal e dos carmelitas.
O livro avança passos adiante, como admitiu Jaelson Trindade, presente na noite de apresentação, com a transcrição dos manuscritos para a escrita atual de música. O pesquisador do Iphan convocou a cidade à luta para transformar As Solfas de Mogi em patrimônio histórico nacional. Para isso, afirmou, possui um dossiê sobre esse acervo. Trindade destacou o feito de Miranda, Paula e Ricciardi, ao “plasmar na atualidade essas composições antigas”, o que estudiosos do passado recente não conseguiram fazer. Agora, elas poderão ser vistas, ouvidas e contribuir para “conhecimentos futuros”.

Mais de uma centena de convidados do Sesc Mogi das Cruzes, o realizador do concerto com músicos e professores da USP, viveram horas únicas. Ouviram bradados, ladainhas e uma cantiga popular encontrada no achado, “Matais de Incêndios”,  que deixa o rol das obras sacras preservadas, para algo mais profano, e instiga os pesquisadores, além de outras canções escolhidas pelo maestro Ricciardi para o resgatar delimitar o exercício da pesquisa e arte, ensinar sobre a música e os compositores brasileiros e confirmar a força e sustentação dada por agências de fomento (como o Itaú e o Sesc) em meio aos desmontes da educação pública e da cultura. Fato também reverenciado por Déo Miranda.

Homenagem a jurandyr 

O historiador Jurandyr Ferraz de Campos, que iniciou a pesquisa sobre os manuscritos musicais preservados pela ordem do Carmo e o Arquivo Histórico, foi homenageado pelos autores do projeto As Solfas de Mogi das Cruzes, com a entrega do livro aos três filhos do professor, ex-festeiro e historiador, autor de obras e defensor do patrimônio histórico da cidade.
Para Jurandyr, o historiador Odair Aparecido de Paula era como um filho, segundo contou Áurea, uma das filhas do ex-secretário municipal de Cultura.

A presença de Jurandyr, no início do projeto, foi ressaltada por Déo Miranda. Foi o professor quem levou os manuscritos ao maestro Régis Duprat (1930-2021), que atestou a raridade dos documentos coloniais.

O produtor agradeceu: “O fazedor de arte é um sonhador”. Alguns dos sonhos ficam guardados em gavetas, disse, outros se materializam mesmo em períodos em que o artista se sente “amordaçado”, como o atual, porém, a despeito dos “nãos”, surgem “oásis” construídos pelo fomento à cultura. Nesse projeto, o oásis foi irrigado pelo Itaú Cultural e o Sesc Mogi. “Graças (a esse conjunto de situações e pessoas) estamos aqui fazendo história hoje”. 

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