Com memórias, arte e à espera de preservação, São Salvador completa 150 anos
Ponto de repouso de famílias mogianas e de inúmeros contos e lendas, o cemitério São Salvador, no Parque Monte Líbano, completa 150 anos de funcionamento nesta quinta-feira (24). O local guarda parte da cultura, memória, arquitetura e arte da cidade. Por isso mesmo sempre surge a discussão sobre a preservação do equipamento, que já viveu […]
23/06/2021 10h45, Atualizado há 688 meses
Ponto de repouso de famílias mogianas e de inúmeros contos e lendas, o cemitério São Salvador, no Parque Monte Líbano, completa 150 anos de funcionamento nesta quinta-feira (24). O local guarda parte da cultura, memória, arquitetura e arte da cidade. Por isso mesmo sempre surge a discussão sobre a preservação do equipamento, que já viveu dias melhores. Um caminho para isso, na avaliação do professor e historiador Glauco Ricciele Ribeiro é uma maior colaboração da população para a manutenção dos jazigos.
A situação no São Salvador é melhor que o Cemitério da Saudade, que hoje continua abrindo covas no meio das ruas entre os túmulos, em resposta à alta demanda por sepultamentos, provocada pela pandemia. O problema, porém, já era observado antes dos primeiros casos da doença.
Com um século e meio de funcionamento, os primeiros registros de enterro no São Salvador foram perdidos com o tempo. O mais antigo é datado de 1.886. Já a lápide mais antiga está datada de 1.879, a da conhecida “Menina da Pipoca”.
Já sobre a preservação no Cemitério São Salvador, Glauco avalia que é preciso colaboração da sociedade. “A Prefeitura faz sua parte, faz o chamamento para as pessoas arrumarem os jazigos, mas a relação das respostas é muito devagar”, defende.
Os furtos no local, segundo ele, diminuíram, até porque hoje os túmulos não são mais adornados como antigamente. Nas ruas, porém, é comum encontrar túmulos quebrados e cobertos por mato.
As lápides funcionam como uma espécie de “museu a céu aberto”, como descreve o historiador, que em setembro lançará o livro 150 anos Cemitério São Salvador Decesso na Terra das Cruzes, após ampla pesquisa sobre o tema.
Na avaliação de Glauco, a arte é um dos diferenciais do espaço. “Apesar de muitos jazigos importantes terem sido demolidos, a visitação ao local ainda é muito rica”, comenta.
O túmulo da Menina da Pipoca é um dos que mais atraem visitantes, segundo comenta o pesquisador. De acordo com o livro “Folclore de Mogi das Cruzes”, escrito pelo historiador Isaac Grinberg, a menina era de uma família rica. Na época, a cidade fazia procissões para São Benedito, que é negro. A mãe dava pipoca para que a menina não visse a procissão para o santo negro. Em um dos dias, ela morreu engasgada com a pipoca. “A lenda surgiu só depois que o túmulo foi feito, porque no local que seriam flores, as mães veem pipocas”, descreve o livro.
“Cada época respeita as leis sanitárias. Com o decorrer disso, a arquitetura dos túmulos mudaram bastante. No São Salvador temos diversas décadas retratadas. Até os anos 40 era comum se fazer arte no túmulo. Não só azulejar, mas ter uma obra”, comenta o professor. Cada túmulo contava uma história, “tinha algo que remetia a pessoa, a morte que ela teve”, diz. “Os arcanjos, por exemplo, adornavam os túmulos das pessoas de maior idade. As colunas quebradas não são um ato de vandalismo, mas simbologia para uma pessoa que morreu na meia idade”.
Saudade
Glauco comenta sobre a abertura de túmulos nas ruas do cemitério da Saudade. “Infelizmente faltou planejamento de diversos gestores anteriores e chegou a esse nível de desrespeito com todos no cemitério”. O assunto vem sendo discutido por O Diário nos últimos meses.
Após uma professora publicar uma foto mostrando a abertura de novas sepulturas no Cemitério da Saudade, no distrito de Braz Cubas, a prefeitura disse ter um planejamento para que todo o espaço disponível seja utilizado na unidade. “Inicialmente o local foi planejado em mandela, os túmulos dispostos em circulos. A ideia era para que os corpos permanecessem enterrados por até três anos. Faltou inovações nas gestões”, pondera Glauco.
Em seu livro, o profesor deverá abordar a história do São Salvador e dos demais cemitérios, como o Da Saudade, o de Jundipeba, que está abandonado, o Parque das Oliveiras, e os de Sabaúna, Taiaçupeba e Santo Alberto, também retratará o trabalho dos profissionais que atuam nestes locais.
A publicação além de retratar a história local, torna-se referência em estudos do tema, campo pouco explorado no país. Junto a publicação está alinhado uma parceria com a Secretária de Governo da Prefeitura Municipal de Mogi das Cruzes, cujo objetivo e realizar melhorias no Cemitério como visitas guiadas, palestras, mapa interativo e apresentações culturais.
Fique de olho: o lançamento deverá ocorrer em setembro deste ano, no próprio São Salvador, no aniversário de 461 anos de Mogi das Cruzes
Visitas
Os cemitérios municipais de Mogi das Cruzes estão atualmente fechados para a visitação devido às restrições sociais adotadas para evitar a disseminação do novo coronavírus. Nos locais, somente está permitido o acesso para a realização de sepultamentos. O fechamento foi revogado até o dia 30 de junho, o que pode voltar a acontecer.