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Asperger nas redes: entenda por que cada vez mais pessoas acreditam ter autismo

Nos últimos anos, vídeos sobre autismo, especialmente sobre o antigo diagnóstico de Síndrome de Asperger, passaram a acumular milhões de visualizações nas redes sociais. Relatos sobre dificuldade de socialização, sensação de inadequação, interesses específicos e desconforto em ambientes sociais fizeram com que muitas pessoas passassem a se identificar com características associadas ao Transtorno do Espectro […]

Por Edicase Conteúdo
17/06/2026 17h01, Atualizado há 2 horas

Nos últimos anos, vídeos sobre autismo, especialmente sobre o antigo diagnóstico de Síndrome de Asperger, passaram a acumular milhões de visualizações nas redes sociais. Relatos sobre dificuldade de socialização, sensação de inadequação, interesses específicos e desconforto em ambientes sociais fizeram com que muitas pessoas passassem a se identificar com características associadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O fenômeno tem contribuído para ampliar a conscientização sobre o autismo em adultos, mas também acendeu um alerta entre especialistas: até que ponto a popularização do tema está ajudando no reconhecimento de casos reais e quando passa a estimular autodiagnósticos equivocados? Segundo a médica e pesquisadora Gabriela Guimarães, o debate exige cautela, porque o termo “asperger” carrega uma história complexa e muitas vezes desconhecida pelo público.

“O conceito foi descrito pelo médico austríaco Hans Asperger durante a década de 1940, em um contexto histórico marcado por práticas de classificação de crianças e ideias eugênicas presentes na Europa da época. Atualmente, o diagnóstico de Síndrome de Asperger não existe mais de forma separada e foi incorporado ao transtorno do espectro autista”, explica.

Nem toda dificuldade social é autismo

A especialista afirma que uma das principais confusões observadas atualmente é a associação automática entre dificuldades sociais e autismo. “Timidez, introversão, ansiedade social, traumas, transtornos de humor, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), altas habilidades e até períodos de isolamento podem gerar experiências semelhantes em alguns aspectos. Isso não significa que a pessoa seja autista”, afirma.

De acordo com Gabriela Guimarães, o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, ou seja, suas características estão presentes desde a infância, mesmo que nem sempre tenham sido identificadas na época. “O diagnóstico não pode ser baseado apenas na identificação com conteúdos da internet. É necessário avaliar a história do desenvolvimento, os sinais precoces, o impacto funcional e realizar um diagnóstico diferencial cuidadoso”, destaca.

Mulher com cabelo longo, liso e preto, usando camisa de botões jeans e camiseta cinza, óculos preto e com um celular na mão com o notebook ao lado
Para muitas mulheres adultas, um vídeo nas redes foi o primeiro contato com informações sobre autismo após anos convivendo com dificuldades sem explicação (Imagem: Dean Drobot | Shutterstock)

O papel das redes sociais

As redes sociais tiveram um papel importante ao ampliar a discussão sobre saúde mental e neurodiversidade. Para muitos adultos, especialmente mulheres, elas funcionaram como uma porta de entrada para buscar avaliação especializada após anos sem respostas para suas dificuldades.

Ao mesmo tempo, algoritmos costumam simplificar conceitos complexos, transformando comportamentos relativamente comuns em possíveis sinais diagnósticos. “Existe uma diferença entre ampliar o acesso à informação e transformar características humanas universais em categorias clínicas. Nem toda sensação de inadequação social indica um transtorno do neurodesenvolvimento”, ressalta Gabriela Guimarães.

O que é considerado no diagnóstico?

Segundo a médica, a avaliação do transtorno do espectro autista envolve diversos fatores, entre eles:

  • Histórico de desenvolvimento desde a infância;
  • Dificuldades persistentes na comunicação e interação social;
  • Presença de interesses restritos ou comportamentos repetitivos;
  • Alterações sensoriais;
  • Impacto funcional na vida cotidiana;
  • Investigação de outras condições que possam explicar os sintomas.

A análise costuma incluir entrevistas clínicas, histórico familiar, informações escolares e, quando possível, relatos de pessoas que acompanharam o desenvolvimento do paciente.

Entre conscientização e banalização

Para Gabriela Guimarães, o desafio atual é encontrar equilíbrio entre reconhecer pessoas que passaram décadas sem diagnóstico e evitar a banalização de uma condição complexa. “Autismo nível 1 de suporte existe e merece visibilidade. Mas também é importante preservar a precisão diagnóstica. O objetivo não é invalidar o sofrimento de quem busca respostas, e sim garantir que cada pessoa receba a avaliação correta e o tratamento mais adequado para sua realidade”, conclui.

Por Daiane Maio

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