Rede de observatórios de segurança registra mais de 20 mil eventos violentos em um ano
No seu terceiro ano de acompanhamento, a Rede de Observatórios da Segurança registrou 21.563 eventos violentos nos sete estados que acompanha: Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Entre 16 indicadores de violência, as ações policiais continuam representando mais da metade desses registros, segundo o relatório “Máquina de moer gente preta: […]
06/10/2022 11h25, Atualizado há 689 meses
No seu terceiro ano de acompanhamento, a Rede de Observatórios da Segurança registrou 21.563 eventos violentos nos sete estados que acompanha: Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Entre 16 indicadores de violência, as ações policiais continuam representando mais da metade desses registros, segundo o relatório “Máquina de moer gente preta: a responsabilidade da branquitude”.
Pela primeira vez, números do Maranhão e Piauí, que passaram a integrar a Rede em 2021, são apresentados. Os dados entre agosto de 2021 a julho de 2022 evidenciam que pessoas negras são as principais vítimas da violência, segundo a rede. O acompanhamento é feito diariamente a partir de informações da imprensa. Os pesquisadores alimentam com notícias um banco de dados posteriormente é revisado e consolidado. No período analisado no relatório, foram 59 eventos violentos por dia, de acordo com essa base de dados
Para a Rede de Observatórios, sob qualquer parâmetro estatístico, é a população negra a que mais morre no Brasil de hoje.
A rede informou que no ano passado acompanhou 12.042 eventos de policiamento. No conjunto dos sete estados, os eventos ligados às polícias representam 55% do monitoramento, mas no Rio de Janeiro, eles chegam a 67%, segundo o levantamento.
Em números absolutos, é São Paulo o estado que apresenta o maior número de ações de policiamento (3.622) e também de denúncias de abuso de agentes, no trabalho feito pelos observatórios. Já o Rio de Janeiro é o estado com maior letalidade nesses eventos, de acordo com a rede.
Se foram somadas todas as mortes registradas nos cinco estados do Nordeste que compõem a rede com o estado de São Paulo, totalizam 281 mortos em 12 meses. No Rio, esse número totalizou 306 mortes.
No Nordeste, o Maranhão é quem tem o maior número de ações. A Polícia Civil é a principal força atuando nesses eventos. Nos demais estados, a força predominante é a Polícia Militar, segundo a Rede de Observatórios.
A Bahia segue liderando o ranking na região de letalidade, com 55 mortes provocadas por agentes do Estado, de acordo com o documento divulgado nesta quinta-feira (6). Já o estado que mais mata agentes de segurança no Nordeste é o Ceará, que fica atrás apenas do Rio de Janeiro.
Tradicionalmente, as ações policiais têm maior destaque nos jornais, seguido de eventos com armas de fogo, segundo a compilação de notícias feita. Já a violência contra a mulher aparece, como nos dois últimos anos, em terceiro lugar no monitoramento. Foram 2.436 registros de eventos violentos contra mulheres, quase sete casos por dia. Tentativa de feminicídio e feminicídio são os maiores registros.
A Rede de Observatórios é um projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com apoio da Fundação Ford.
Arma apontada
O relatório foi divulgado na mesma semana em que o advogado Alexandre Marcondes decidiu denunciar à Corregedoria da PM de São Paulo e à OAB uma abordagem policial em que acredita ter sido alvo de racismo. Ao Estadão, Marcondes contou como teve uma arma apontada na sua cabeça por um PM apenas por ser negro.
O episódio foi no domingo (2) no Alto da Lapa, bairro de alta renda de São Paulo onde mora o advogado. Ele saiu de casa para ir à padaria de manhã quando um PM desceu de um carro da corporação com a arma apontada.
O advogado pôs as mãos sobre a cabeça e virou-se de costas para ser revistado, como ordenado pelo policial. Mas ao perguntar porque havia sido parado, o PM informou somente que Marcondes estava em “atitude suspeita”
“Fiquei realmente com medo e nem lembro se era para colocar as mãos para cima ou para trás. Depois, eu disse que nunca tinha tido a experiência de ter uma arma apontada para o meu rosto e o policial disse que para tudo sempre tem uma primeira vez. Até me perguntou se eu preferia que fosse ele ou um bandido apontando a arma”, relatou o advogado ao Estadão.
Marcondes disse que depois que apresentou a carteira da OAB, o policial mudou de postura e alegou que um dos motivos para suspeitar do advogado foi porque ele estava de máscara no rosto em ambiente aberto. Segundo o advogado, ele questionou se o PM iria abordar também duas mulheres que passaram na mesma hora de máscara e o policial negou. Ao sugerir que a abordagem foi por racismo, o PM disse que o morador do Alto da Lapa estava “sendo deselegante” e apontou para a câmara acoplada à farda.