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Preço de bilhete semelhante deixa passageiro refém de empresas aéreas

Com aviões lotados, proximidade das festas de fim de ano e aumento limitado do número de voos, quem procura passagem aérea no pós-pandemia já se deu conta de que viajar de avião ficou mais caro e que os preços para algumas rotas são muito próximos entre as empresas. A retomada acelerada das viagens de negócios […]

Por O Diário
12/10/2022 07h46, Atualizado há 689 meses

Com aviões lotados, proximidade das festas de fim de ano e aumento limitado do número de voos, quem procura passagem aérea no pós-pandemia já se deu conta de que viajar de avião ficou mais caro e que os preços para algumas rotas são muito próximos entre as empresas.

A retomada acelerada das viagens de negócios — segmento que compra os bilhetes de maior valor, em razão da flexibilidade de remarcação e cancelamento ou da viagem de última hora — facilita a cobrança mais alta pelas companhias.

Compras feitas na véspera levam o valor do bilhete às alturas. A busca no site das empresas por uma passagem Rio-São Paulo para quinta-feira mostra valores similares, de R$ 2.803,83 na Azul e R$ 2.754,83 na Gol e na Latam.

A diferença entre os valores praticados é inferior a R$ 100. O preço era o mesmo para qualquer horário nos sites de Gol e Latam. Na Azul, este era o menor valor para viagens nos primeiros voos pela manhã.

Mesmo quando se leva em conta compras feitas com mais antecedência, a média também está subindo. Levantamento feito pelo buscador de viagens Kayak a pedido do GLOBO mostra que o valor médio do trecho Rio-São Paulo hoje é de R$ 785. Subiu 21% na comparação com valores verificados do fim de julho a fim de setembro com os de 30 de abril a 30 de junho, e 57% em 12 meses. Um bilhete Rio-Brasília, por exemplo, sai, em média, por R$ 888, um aumento de 22% e 26%, respectivamente.

Compras com um horizonte maior têm preço mais atraente, embora o patamar permaneça muito parecido entre as empresas. Para 7 de novembro, com base nas buscas nos sites das empresas, o bilhete da ponte aérea sai a partir de R$ 476,83 na Azul, a R$ 427,83 na Gol e a R$ 468,83 na Latam.

Demanda aquecida

Para Luiz Strauss, da Associação Brasileira de Agências de Viagens do Rio de Janeiro (Abav-RJ), o faturamento do setor com a venda de passagens aéreas voltou ao nível pré-pandemia, mas o número de bilhetes não é o mesmo. Ele ressalta que as aéreas têm dificuldade de contratar aviões e profissionais para aumentar o número de voos.

— Com a demanda aquecida, tem rotas custando caríssimo. Existe especulação — diz. — O preço muito parecido entre as empresas também tem a ver com essa demanda muito aquecida, combinada à ocupação alta. As aéreas sabem os voos mais demandados e quando cobrar mais caro, como terças e quintas para Brasília e segundas e sextas na ponte aérea. São linhas superdemandadas.

Para Luciana Atheniense, advogada especializada em Direito do Turismo, ainda que exista uma crise que tenha afetado o desempenho do setor, o consumidor sai cada vez mais prejudicado:

— O consumidor fica numa situação de vulnerabilidade e, mais uma vez, refém dos preços. A malha aérea está apertada, os aviões lotados e há muita demanda, porque, além da retomada nas viagens, há a remarcação de bilhetes adiados durante a pandemia. Existe crise, mas há sempre desculpas para manter o consumidor refém da situação.

Ricardo Morishita, professor de Direito do Consumidor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), reforça que garantir os direitos do consumidor é obrigação do Estado. Ele pondera que, num país com as dimensões do Brasil, o transporte aéreo está relacionado ao direito de ir e vir.

— Há interesse público em jogo. O transporte aéreo é regulado, e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) tem de se posicionar. O regime é de liberdade tarifária, mas é preciso avaliar se ocorrem abusos e excessos no aumento de preços — diz Morishita.

Procurada, a Anac reforça que o preço é atribuição das empresas no regime de liberdade tarifária e ela monitora, mas não interfere nas tarifas. Acrescenta que a alta do combustível e de custos vinculados ao dólar levam à oscilação nos preços de bilhetes.

Viagens de negócios

Alessandro Oliveira, professor e pesquisador do Núcleo de Economia do Transporte Aéreo do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), ressalta que após o impacto da pandemia, as empresas aéreas enfrentam alta no custo do querosene de aviação e de despesas atreladas ao dólar, equivalentes a 60% do total.

— Há também o efeito atrelado à volta do viajante a negócios. Isso pressiona os preços. Pode estar ocorrendo em grandes centros de negócios e é onde vamos ter a maior geração de viagens corporativas — explica. — As companhias aéreas não querem perder rentabilidade junto ao passageiro a negócios. Então não promovem muitos descontos no momento em que esses passageiros estão demandando mais viagens.

Segundo dados da Abracorp, que reúne agências de viagens corporativas, este segmento virou a chave em junho, quando o faturamento mensal passou a superar o de igual mês de 2019.

— Com os aviões cheios, a demanda corporativa é decisiva para a manutenção de preços. Mas se a passagem subir demais, o viajante a negócios também busca outra alternativa — alerta Gervasio Tanabe, presidente da Abracorp.

As companhias aéreas foram procuradas a respeito da semelhança nos valores dos bilhetes em algumas rotas e horários, mas não comentaram o tema especificamente.

A Azul afirmou que as tarifas variam de acordo com fatores como trecho, sazonalidade, compra antecipada, disponibilidade de assentos e outros. E que “fatores externos, como a alta do dólar, são elementos que também influenciam nos valores das passagens”.

Já a Latam disse estar “acompanhando o crescimento da demanda por viagens no mercado doméstico e ampliando gradativamente a sua oferta de voos ao longo dos últimos meses. Movimento que se manterá nos próximos”.

A empresa voa para 54 localidades, contra 44 antes da Covid. E afirma ter retomado 100% da oferta de assentos nos voos nacionais. Ela diz que os valores dos bilhetes estão proporcionais ao combustível, frisando que o querosene de aviação mais que dobrou de preço de junho de 2021 a junho deste ano.

A Gol planeja ampliar em 12% a oferta de assentos em voos domésticos este mês na comparação com setembro, focando nas principais capitais, como Rio, São Paulo, Brasília, Porto Alegre e Belo Horizonte.

Sobre as tarifas, a Gol explica que a precificação depende de uma série de fatores. E que atende a perfis corporativo e de lazer. As vendas de passagens começam, em geral, 330 dias antes da partida, beneficiando quem compra com antecedência.

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