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‘Hoje o cemitério é meu lugar de sossego’, diz coveiro que filmou até exumação do pai

O passo a passo de uma exumação, a abertura de uma cova, a limpeza de gavetas onde ficam… os mortos. Vídeos que mostram o cotidiano do trabalho dentro de um cemitério ganharam repercussão nas redes sociais com as postagens do sergipano Gleibson Roberto, de 36 anos. O coveiro, que mostrou até a exumação do corpo […]

Por O Diário
22/03/2022 18h32, Atualizado há 689 meses

O passo a passo de uma exumação, a abertura de uma cova, a limpeza de gavetas onde ficam… os mortos. Vídeos que mostram o cotidiano do trabalho dentro de um cemitério ganharam repercussão nas redes sociais com as postagens do sergipano Gleibson Roberto, de 36 anos. O coveiro, que mostrou até a exumação do corpo de seu próprio pai para seus seguidores, faz sucesso na internet e já tem 18,6 mil seguidores no Tik Tok. Hoje, ele também alimenta perfis no Kwai e no Youtube sob o nome de “Coveiro em ação”.

O coveiro-celebridade é de Santo Amaro das Brotas, a 36km de Aracaju, e é funcionário público do município. Em entrevista ao Globo, ele conta que sempre soube que a profissão gerava curiosidade, mas não esperava ter seu conteúdo assistido por pessoas de todo o país.

– Os vizinhos sempre me paravam na rua para perguntar como eram feitos os procedimentos, daí surgiu a vontade de publicar a rotina de trabalho. Normalmente filmo o que tenho que fazer, mas sei aproveitar as eventualidades como escorpiões e baratas dentro dos túmulos – relata o coveiro.

Antes de começar a publicar os conteúdos nas redes, Gleibson Ribeiro diz que procurou um advogado para saber o que podia publicar e conta com o auxílio de uma prima nas postagens.
– Sempre pensei em criar um canal, mas não sabia como. Minha prima é muito ativa e juntos passamos a pensar no que poderia ser postado. Meu advogado informou que poderia publicar sem problemas, só não podia identificar o falecido.

O primeiro vídeo que o coveiro publicou já foi visto por setenta e três mil pessoas. Mas foi quando publicou partes de uma exumação que o vídeo viralizou e bateu 1,5 milhão de visualizações. 

Antes do sucesso nas redes, o coveiro chamou a atenção dos habitantes de Santo Amaro quando colocou o contato telefônico na porta do cemitério. Motivado pela grande demanda, ele diz que a medida facilitou o trabalho.

– Teve um dia que nós dois não estávamos no cemitério e uma família veio de Aracaju para enterrar. Eles tiveram dificuldade de me encontrar, estava na lotérica. Deu tudo certo, mas percebi que era importante esse contato direto – explica.

Desde então, uma placa com o seu número de celular enfeita a fachada, a qual ele chama carinhosamente de “Disk Coveiro”.

Anos antes de se inscrever para o concurso de coveiro em Santo Amaro das Brotas,  Gleibson Roberto jamais se imaginaria na função: “Se eu passasse na porta da funerária, eu nem dormia”, lembra. Mas desempregado e com o sonho de seguir carreira pública, ele concorreu a uma das duas vagas na função em 2010. De imediato, ele não foi chamado, pois ficou em terceiro lugar no concurso. Mas com a desistência de um colega, foi convocado um ano e dois meses depois da prova.
Ele conta que gelou ao ser chamado para o primeiro sepultamento:

– Inventei uma desculpa, mas no terceiro dia, tive que ir fazer. Foi muito difícil encarar a população, todos já me conheciam – relatou.

De acordo com o IBGE, Santo Amaro das Brotas abriga um pouco mais de doze mil habitantes. Por ser pequena, o coveiro tinha dificuldade em separar o trabalho do pessoal. Para resolver isso, se agarrou as dicas de um colega de trabalho que dizia para preparar o psicológico e evitar olhar para o corpo neste começo. Gleibson diz que, à medida que foi fazendo uma série de enterros, o ofício se tornou completamente normal.
– Quando fui convocado, já estava trabalhando como segurança e hoje vejo que quem nos faz mal são os vivos. O cemitério é meu lugar de sossego, tenho mente tranquila – afirma o coveiro.

O cemitério de Santo Amaro emprega apenas dois coveiros. Com a carga horária de 30 horas semanais, Gleibson afirma que trabalha remunerado de 7h às 13h, mas que depois, faz enterros voluntariamente para ajudar a população.

– Não existe horário, a hora é a da necessidade. As famílias preferem enterrar no período da tarde, eu faço tudo para atender a comunidade – completa.
No auge dos casos da pandemia, Gleibson conta que eles faziam sepultamentos de vítimas da Covid-19 de dentro e fora da cidade. Com a alta demanda, eles passaram a fazer enterros até de madrugada

– Eram muitas pessoas morrendo, trabalhávamos quase 24h por dia – relembra.

Sem saber que gostaria de ser coveiro, Gleibson acabou se apaixonando pela profissão que é objeto de muito preconceito. Após dez anos na função, ele conta que o verdadeiro sonho é ser aprovado no concurso do IML para atingir uma maior estabilidade e remuneração.

– Ainda não consegui passar no concurso, mas sou apaixonado pelo corpo humano. Estou estudando e espero ser aprovado – finaliza.

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