Tradição de escolas de samba cinquentenárias e apoio comunitário explicam força do Carnaval de rua
A Liga Independente das Escolas de Samba de Mogi das Cruzes nasceu no mesmo ano em que a Acadêmicos do São João festejou os 50 anos de fundação, em 2022. Há uma coincidência histórica neste período que alimenta os argumentos de carnavalescos e comunidades do samba mogiano sobre o símbolo de resistência, tradição e esperança […]
18/02/2023 07h25, Atualizado há 688 meses
A Liga Independente das Escolas de Samba de Mogi das Cruzes nasceu no mesmo ano em que a Acadêmicos do São João festejou os 50 anos de fundação, em 2022. Há uma coincidência histórica neste período que alimenta os argumentos de carnavalescos e comunidades do samba mogiano sobre o símbolo de resistência, tradição e esperança regado com a criação da nova entidade. Outras duas escolas estão chegando ao cinquentenário, a Estação Primeira de Braz Cubas, a Brazcubão, que tem 49 anos, e a Vila Industrial, com 47 – todas próximas da “data de ouro”. A Liga é uma aposta para o Carnaval reavivar, dissociado da megadependência que as agremiações tiveram até aqui do poder público e dos humores do prefeito da vez e da economia.
O Diário ouviu os 5 presidentes das escolas que assinam a certidão de nascimento da Liga: além das “cinquentinhas”, a Acadêmicos da Fiel, que está a caminho dos 30 anos, e a Guerreiras do Fogo, que possui 9 anos e é a única dirigida por um grupo de mulheres, moradoras de bairros do distrito de Braz Cubas.
O quinteto é unânime em prometer um Carnaval que deixará o público com vontade de logo chegar 2024. Neste ano, a cidade terá o que foi possível fazer.
A reunião das baterias e de parte dos componentes das escolas no CIP Maurício Najar (Pro-Hiper), no Mogilar, foi uma forma de manter a agenda e estrear a gestão financeira do evento assinada pelas agremiações, com a conquista do patrocínio da Distribuidora de Bebidas Eugênio.
A Liga segue modelo da antiga Amesb (Associação Mogiana das Escolas de Samba e Bloco), que tinha na direção, representantes das escolas; porém, prega a autonomia e o desenlace com o poder público, com foco no patrocínio e parcerias com a iniciativa privada e na valorização do Carnaval como negócio e produto cultural e social.
Planejada pelos presidentes, mas com o incentivo da Secretaria Municipal de Cultura, a Liga, assinala Geraldo Adriano Bertochi, da Acadêmicos da Fiel, tem como desafio fazer um Carnaval diferente e não ficar “nas mãos do prefeito”. “Não dá para falar da Amesb porque os tempos são outros. A gestão terá de ser outra e o desfile será pensado e feito por quem entende do Carnaval”.
Novos tempos
O encontro das escolas marca o fim do jejum iniciado em 2020, último desfile de rua oficial da cidade. Quem for ao Pró-Hiper, garantem os organizadores, será brindado com a força das baterias e integrantes das escolas que voltaram a frequentar as quadras desde janeiro. “As pessoas querem participar porque ficaram muito isoladas na pandemia. Muita gente não valoriza o Carnaval, mas Mogi, tem uma história rica. As escolas que estão fazendo 50 anos são um resultado da luta de quem já passou pelas escolas”, diz Emerson Rodrigues da Silva, o Lezinho, presidente da Liga e da Vila Industrial.
Carnaval no CIP (Pró-Hiper)Pró-Hiper) De domingo a terça-feira
19 a 21 de fevereiro
Todos os dias – Matinês
a partir das 14h30
Dia 19 – Jabuticaqui
Dia 20 – DJ K.O.
Dia 21 – Terra de Almofadas
Dia 19 – 19h
Banda Carnaval de Salão
DJ PETT/DJ HALI
Bloco Sem Freio
GRES Guerreiras de Fogo
Thi Sanches e Banda.
Dia 20, a partir das 18h30
DJ Lucrids
Unidos da Vila Industrial
Anderson Cid
Acadêmicos da Fiel
DJ PETT/DJ HALI
Dia 21, às 18h30
DJ Lucrids
Os Paccini’s
Brazcubão
Pagode do Canta
Acadêmicos do São João
São João
A Acadêmicos do São João vendeu centenas de camisetas e promete levar muitos saojoanenses ao CIP (Pró-Hiper), no terça-feira (21), quando se apresenta com a bateria formada por muitos filhos dos filhos dos fundadores da agremiação, e também integrantes da velha guarda, como o mestre-sala Marcão e a porta-bandeira Adriana, além dos casais atuais, Sobreno e Gláucia e Caíque e Isabel.
A renovação da identidade da São João, com a presença de moradores e familiares de fundadores, atividades sociais e formação de músicos é destacada pelo presidente Henrique Rezende, 31 anos, que desde os 9 anos frequenta a quadra, que já foi presidida pelo tio dele, o Poló.
Henrique acompanha um “renascimento” da escola que viveu maus-bocados, inclusive, com certo afastamento da comunidade do entorno da quadra. “Estamos trazendo pessoas novas, inovando, até mesmo nas redes sociais. Foi por isso que no último Carnaval, levamos mais de 800 componentes para a avenida”, resume, acreditando que a Liga das escolas irá imprimir novo ritmo, inclusive, na gestão administrativa da festa. Durante a pandemia, rodas de samba (quando isso era permitido) e artifícios como a manutenção de um lava-jato para carros garantiram a manutenção da quadra.
Ele comenta que um dos trunfos do samba mogiano está no compadrio entre escolas. “Nós nos ajudamos. Fizemos isso com o Sales (que, aposta ele, irá voltar e fará parte da Liga) e as Guerreiras”, comenta, citando as demais agremiações e deixando de fora, a principal rival, a Vila, que levou o título em 2020. Questionado sobre a Vila, ele alfineta: “Primeiro preciso ganhar do Lezinho (presidente da Vila), em 2024”. (E.J.)
O último grito de campeã foi dado em 2010 pela verde e rosa.
Acadêmicos da Fiel
“Não é só Carnaval”. Esse conceito se tornou uma espécie de lema na Acadêmicos da Fiel, agremiação majoritariamente formada por corintianos, e com endereço no Jardim Rodeio. É no bairro, nas ações com a comunidade, que a agremiação concretiza o conceito. A abertura do espaço para outras atividades, parceria com a igreja e ações como festas e distribuição de cestas básicas, roupas e o que mais for preciso, são enumeradas pelo presidente Geraldo Adriano Bertochi, 50 anos.
Com uma gestão administrativa atuante, a escola tem conseguido avançar na pauta comunitária, social e carnavalesca, como ele conta.
Participações em eventos e uma rotina de atividades na quadra, como o projeto Sementinha, que forma as novas gerações, além do amor pelo mesmo time, foram um fator importante durante o período da pandemia, quando os desfiles foram suspensos, para manter a agremiação que está a caminho de completar 30 anos.
“Nós não paramos na pandemia, continuamos nos capitalizando”, disse. Conta, ainda, a parceria com a escola Gaviões da Fiel.
Para Geraldo, o Carnaval de 2024 será diferente. “As escolas não estarão mais na mão do prefeito. Os R$ 40 mil que recebemos em 2020, não garantiam o desfile. Naquele ano, São Sebastião entregou R$ 110 mil a cada escola”, compara. Ele afirma ainda que a gestão da Liga, nas mãos dos atuais presidentes, deverá ser profissional. “O sambista é uma pessoa extremamente vaidosa, mas a gente precisa (imprimir) de mais administração”. E o corpo gestor da Liga tem essa pegada, segundo ele.
Ano que vem a Fiel quer conquistar o terceiro título de sua história.
Brazcubão
De olho nas comemorações do cinquentenário no ano que vem, a Brazcubão, no nome oficial, Estação Primeira de Braz Cubas, está fechando uma parceria para manter um calendário durante esse ano e reabilitar a escola que enfrenta dificuldades financeiras, após uma troca no comando da entidade.
Um projeto acalentado pelo presidente, Paulo Roberto da Silva, é antigo: a cobertura da quadra própria, que sempre recebe um público cativado durante cinco décadas de samba e carnavais marcantes. Aliás, no ano que vem, no desfile, a ideia é reeditar um enredo que fez história na avenida mogiana, o Divina Luz, uma forma encontrada para reverenciar as famílias e integrantes que sempre estiveram a postos para representar o distrito de Braz Cubas.
Paulo conta que, mesmo na pandemia, o fio da solidariedade e da atuação social que permeia a história da agremiação foi selado pela confecção de centenas de máscaras e a distribuição de cestas básicas a famílias carentes.
O presidente afirma que a recalibrada de eventos na quadra, como a festa pelos 49 anos, em dezembro passado, e a chegada da Liga Independente das Escolas de Samba, aliados à tradição do Carnaval mogiano, pavimentam as expectativas para um novo momento dessa cultura popular que “sempre teve muita força, apesar da falta de investimento do poder público”. Ele também aposta na profissionalização do desfile, inclusive, das regras para eliminar falhas na apuração. “Mogi terá de ter fracionar notas, para que o resultado seja mais justo”, indica.
Vila Industrial
Vitoriosa em 2020, o Grêmio Recreativa e Escola de Samba Unidos da Vila Industrial detém o título de tricampeã do Carnaval mogiano e deverá levar para a apresentação que acontecerá nesta segunda-feira (20), no CIP Maurício Najar (Pró-Hiper) uma característica atada à própria história: moradores da comunidade nascida com a construção da siderúrgica Mineração Geral do Brasil (depois, Cosim).
Presidente da Vila e da Liga Independente das Escolas de Samba de Mogi das Cruzes, Emerson Rodrigues da Silva, o Lezinho, aposta que o Carnaval deste ano, em modelo seguido pela primeira vez, com a apresentação de partes das alas das agremiações, e não de um desfile, com recursos da iniciativa privada, irá fortalecer a disputa em 2024.
“Nós estamos iniciando uma nova era, um novo tempo, em que o Carnaval de Mogi segue por um caminho diferente e terá continuidade, durante o ano, nas escolas”.
Lezinho vinha defendendo uma “virada” para dar sustentação ao evento, que sempre esteve atrelado às verbas públicas e a disposição da Prefeitura.
Nos anos recentes, a interrupção das apresentações, antes da pandemia forçosamente promover o jejum entre 2021, 2022 e neste ano, não teve força o bastante para desarticular as agremiações. A decisão política dos presidentes e dirigentes de escolas em fundar a Liga, além da tradição da disputa de rua, é prova disso.
A Vila Industrial irá levar a bateria, porta-bandeira e mestre-sala, e outras alas para a apresentação no Mogilar.