Psicóloga Roberta Almeida responde: por quê a gente vê o ‘BBB’?
Há 20 anos, assim como é certo de que o Natal é no dia 25 de dezembro ou que dois mais dois são quatro, tem ‘Big Brother’ no início do ano. E o País assiste. Mais do que isso: acompanha, comenta, reage, vibra, vive. Em 2022 não poderia ser diferente. A nova edição do ‘BBB’ […]
05/02/2022 08h18, Atualizado há 688 meses
Há 20 anos, assim como é certo de que o Natal é no dia 25 de dezembro ou que dois mais dois são quatro, tem ‘Big Brother’ no início do ano. E o País assiste. Mais do que isso: acompanha, comenta, reage, vibra, vive. Em 2022 não poderia ser diferente. A nova edição do ‘BBB’ está no ar e tem rendido uma enxurrada de “memes” na internet. Mas o que está por trás deste fenômeno?
Para entender, O Diário conversou com a psicóloga, Roberta Almeida, que é formada pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), pós-graduada em orientação vocacional, palestrante e coautora de diversos livros. Além da reportagem escrita, o leitor pode conferir a entrevista em vídeo clicando aqui.
Antes de responder à pergunta, ela complementa a questão. Por que um “programa de TV ultrapassa novas mídias; mobiliza tanto as pessoas; faz surgir novos comportamentos e bordões que viralizam; gera sentimentos de amor e ódio, cancelamento, descancelamento e faz um anônimo ser campeão e ter milhões de seguidores, como na última edição em que Juliette Freire se tornou um fenômeno midiático?”.
Agora sim vem a explicação. “É interessante falar da vida alheia, viver a realidade de outro, opinar, saber como seu ídolo se comporta, trazendo a figura do herói, ou do cara comum, humanizando o ídolo e tornando o anônimo representante de um grupo”.
Se os participantes “tiverem carisma, autenticidade, forem injustiçados ou excluídos, há grande chance de caírem nas graças do público, que hoje tem o poder da mídia social”, analisa ela, que observa um movimento diferente nos últimos anos: “grandes marcas escolheram seus jogadores preferidos”. Em outras palavras, a gente – e inclui-se aqui até mesmo empresas – gosta de fofocar.
Causa espanto a força do programa, que é exibido primariamente na televisão, e não na internet, onde estão os jovens. Mas ele é multimídia. O melhor exemplo disso é a edição de 2020, quando o “Paredão” entre Felipe Prior, Manu Gavassi e Mari Gonzalez registrou incríveis 1.532.944.337 votos. É isso mesmo: 1,53 bilhão de votos. A marca entrou para o Guinness World Records como a maior votação de um programa de televisão no mundo.
É claro que, para alcançar este feito, a fórmula do ‘BBB’ precisou mudar ao longo dos anos. Houve troca de apresentador e maior proximidade com a internet, a partir de uma nova linguagem baseada nas redes sociais. Também teve a inclusão de uma rede de programas auxiliares, alguns deles com a ex-sister Ana Clara como apresentadora. Mas um fator inesperado fez toda a diferença: a pandemia de Covid-19.
“No início da pandemia o ‘BBB’ despertou um grande interesse, movendo torcidas e que naquele momento de confinamento e distanciamento social, o brasileiro viu como uma opção para ocupar um espaço vazio, onde diante de um momento muito peculiar na nossa sociedade, ter um programa de realidade, quase como uma ‘novela aberta da vida real’, na mesma época que houve uma explosão de lives e era preciso ter um entretenimento para fugir da realidade que estávamos vivendo, se tornou uma fonte de prazer e lazer”, analisa Roberta.
A psicóloga continua e afirma que “o programa mexe com as emoções, tanto de quem está dentro como de quem está fora” da casa, o que desperta a curiosidade. Mas essa preocupação e o debate gerado a partir do que se vive ali dentro do ‘BBB’ levanta outra dúvida. Aquela é a realidade?
De acordo com Roberta, é fácil identificar que não. Afinal, é “um ambiente controlado, propício a discussões por privações de comida, sono, música alta, cores fortes, com contato 24 horas e pessoas totalmente diferentes do contato social”.
Tudo isso pode “provocar alterações de humor, estresse e mudanças repentinas nos participantes”, o que gera “reações inesperadas, e diferentes das quais ele vivenciaria do lado de fora da casa”. E está aí a explicação para tantas brigas protagonizadas na casa mais vigiada do Brasil, muitas das quais impulsionadas pela própria edição, a partir do ‘Jogo da Discórdia’ às segundas-feiras. Aliás, “briga” não, né? É “treta” mesmo.
Outro aspecto que vale a pena ser analisado é a busca pela fama. Afinal, mais do que a quantia de R$ 1,5 milhão, o ganhador ou ganhadora certamente sairá da casa com milhões de seguidores nas redes sociais, e ao invés de somente aparecer na televisão como fizeram os primeiros vencedores, terá carreira certa como digital influencer – vide Juliette.
Exemplo fresco disso é o brother Luciano, primeiro eliminado da edição de 2022. Ele chegou a dizer que gostaria de “ser famoso nível Beyoncé”, quando tanta gente te segue nas ruas que não é possível ter paz para ir a uma lanchonete. A psicóloga alerta: é preciso cuidado com este tipo de ambição.
“A busca incessante por fama é um objetivo que alguns participantes trazem”. Para eles, “ser famoso é algo positivo, mas é consequência de uma profissão, como ator, cantor, que seria o lado bom, ganhando atenção, presentes, etc. Mas o lado negativo da fama é a perda da privacidade, exposição excessiva, compromissos, comentários maldosos na internet dos chamados haters, lidar com rejeição e críticas. Em muits casos, o desejo de ser famoso não conseguirá sustentar emocionalmente o ônus de ter fama pela fama”.
Isso não quer dizer que não se deve sonhar alto. Ou que não se deve assistir ao ‘Big Brother Brasil’. Na verdade, pode ser um interessante exercício ver o programa, já que, como diz Roberta Almeida, ele pode ensinar lições sobre “como errar e acertar, ter empatia, respeito pelo outro, saber dizer não, priorizar sua saúde mental, ser ético com seus valores” e ainda a importância de se “criar narrativas verdadeiras”, como costumam fazer os campeões do reality.