‘Encontro Mogiano de Artes Circenses’ faz de praças públicas um picadeiro
“Respeitável público! O circo chegou”. E ao invés do picadeiro, com uma grande lona e com uma colorida arquibancada, chegou em praças públicas de Mogi das Cruzes, com o participativo e inclusivo ‘Encontro Mogiano de Artes Circenses’, que acontece todas as terças-feiras e já teve uma edição em frente ao Centro Cultural e outra no […]
05/03/2022 15h30, Atualizado há 688 meses
“Respeitável público! O circo chegou”. E ao invés do picadeiro, com uma grande lona e com uma colorida arquibancada, chegou em praças públicas de Mogi das Cruzes, com o participativo e inclusivo ‘Encontro Mogiano de Artes Circenses’, que acontece todas as terças-feiras e já teve uma edição em frente ao Centro Cultural e outra no Largo do Rosário. A próxima será dia 8, no Largo do Carmo.
A atividade é independente. Não há recursos, verba ou patrocinadores. Somente a vontade de exercer, ver e ser visto praticando números circenses. Uma das organizadoras é Thaís Guerra, fundadora da Cia. Lá Vem Elas. Aos 25 anos, ela ganha a vida como artista, principalmente com o trabalho sobre pernas de pau, que exerce aos finais de semana, em estabelecimentos comerciais e festas de São Paulo.
É importante dizer que Thaís vem de uma família de artistas. Filha do ator, agitador cultural, professor, arte educador e palhaço Marco Guerra, que idealizou a pesquisa ‘Pedagogia do Palhaço’ e espetáculos como o ‘Circo de Brinquedo do Palhaço Melancólico’, ela sempre esteve envolvida neste meio.
Exatamente por isso, Thaís faz parte de um grupo que reúne representantes de diversos coletivos. Em uma das conversas com este pessoal, observou que “não via tanto movimento de união da galera do circo”, seja entre eles ou com a cidade. Para mudar o cenário, começou, em 2021, a participar de vários projetos, como a primeira Caravana Circo Corredor e o ‘Cultura nas Escolas’.
Ainda assim, parecia pouco. “Temos muitos artistas, e é muito louco ver pessoas que não se depararam com alguns tipos de arte”. Ora, se o público massivo não está nos centros e casas culturais, onde está? Nas ruas.
Surgia aí a ideia de reunir um time de artistas nas praças. Não de vez em quando, mas pontualmente, todas as semanas. E durante a Caravana, a ideia tomou forma. “Me aproximei de muita gente e descobri que algumas delas, artistas, moravam muito perto de onde moro. Um na rua de baixo, outro na rua de cima. A gente foi se reunindo várias vezes e eu os convidei para fazer parte da Cia. Lá vem Elas. Todos toparam”, conta Thaís.
O que começou como apenas treinos logo se tornou algo mais, continua ela. “Um dia, o Marcio Pial (humorista, artista circense, palhaço e atualmente atuante na Secretaria Municipal de Cultura de Mogi) deu uma oficina, e estava todo mundo lá, inclusive o Vandão (Vander Leonardo), do coletivo Combuca da Judite. Quando a programação terminou, eu comentei ‘vocês não sentem que a gente precisa se reunir uma vez por semana, na praça?’”.
A ideia foi abraçada, e nascia ali o ‘Encontro Mogiano de Artes Circenses’. Neste primeiro momento, a organização está “experimentando as praças”. A edição de estreia, em 15 de fevereiro, aconteceu na Praça Monsenhor Roque Pinto de Barros, em frente ao Centro Cultural; já a segunda, em 22 daquele mês, que foi fotografada por O Diário, foi realizada no Largo do Rosário (praça da Marisa).
Uma terceira data, 1º de março, foi atrapalhada pela forte chuva que encerrou o Carnaval. Assim sendo, a próxima data será a próxima terça, dia 8, no Largo do Carmo. “Estamos vendo o espaço mais confortável, com interação com transeuntes. Queremos que a cidade veja a gente se reunindo”.
A dinâmica é livre. Para participar, é só chegar. Para assistir, também. Os encontros começam às 18 horas, e às vezes rolam por quatro horas seguidas. Somente na mochila de Thaís já há material suficiente para pelo menos três jogos, feitos a partir de bolinhas e claves. Mas tem muito mais.
“É muito orgânico. No último encontro, a Combuca chegou, parou a Kombi na praça, tirou som, caixa, e foi soltando outros materiais; chegou um artista que trabalha com ioiô, outro com malabares, eu subi na perna de pau, tinha bandeiras também”, conta ela.
Além de tudo isso, há um diferencial muito interessante em relação ao circo tradicional: o público pode participar, pôr a mão na massa. “É como se fosse uma vivência. As pessoas vêm conhecer, pegar no material que veem de longe, sentir o peso, tentar jogar”.
Inclusive, é essa interação que faz com que os artistas retornem na semana seguinte. Para eles, ver o sorriso no rosto do público não tem preço. “Tem pessoas que vem e brincam, tem pessoas que ficam horas olhando”. E não estamos falando de cinco ou 10 rostos. No último encontro, foram 50 brincantes, além dos transeuntes do Centro de Mogi, região que foi escolhida a dedo, mesmo que seja distante do Jardim Ivete, onde Thaís vive.
“Todo mundo vai para lá, por um motivo ou por outro. Se você quer um chá específico, tem que ir no Mercadão, porque é lá que tem. Se vai comprar roupa, vai no calçadão. Ali tem trânsito de pessoas muito grande”, justifica ela, que espera, no futuro, ver os encontros também “nos bairros”, onde este tipo de ação é “extremamente importante”.
A agenda pode trilhar o caminho para fazer o que Marcio Pial disse na última semana, em entrevista a este jornal: “Há 20 anos fomentamos para que pudesse ter uma casa. Agora queremos também um lar para a arte circense, com várias trupes”.
Ou seja, vale a pena observar o desenvolvimento deste projeto que tem potencial para ser selecionado em editais locais, como o do Programa de Fomento à Arte e Cultura de Mogi (Profac) ou estaduais, como o Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (ProAC).
Afinal de contas, se aos finais de semana Thaís está sobre as pernas de pau, e às terças à noite faz parte dos encontros, no restante do tempo ela cria, planeja, produz. E esta estrutura está na pauta, sempre com o objetivo de “quebrar paradigmas criados em torno do artista”, neste caso, sobretudo aos que exercem um “trampo pesadíssimo” com a arte circense na cidade, muitos deles em semáforos.