Em documentário, ator mogiano Eduardo Mossri mostra a violação dos direitos de refugiados
2020. Pouquíssimo tempo antes da explosão de uma pandemia que ninguém previa. Eduardo Mossri se instala em Boa Vista, Roraima, para um trabalho voluntário junto ao Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR Brasil). Lá, teve contato com pessoas vindas da Venezuela, Guiana, Haiti e outros países. Uma experiência transformadora, define ele. Eduardo é ator, […]
05/12/2022 08h31, Atualizado há 689 meses
2020. Pouquíssimo tempo antes da explosão de uma pandemia que ninguém previa. Eduardo Mossri se instala em Boa Vista, Roraima, para um trabalho voluntário junto ao Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR Brasil). Lá, teve contato com pessoas vindas da Venezuela, Guiana, Haiti e outros países. Uma experiência transformadora, define ele.
Eduardo é ator, conhecido do grande público pela participação na novela ‘Órfãos da Terra’, exibida pela TV Diário em 2019 e pelo espetáculo teatral ‘Cartas Libanesas’, que já pôde ser visto em vários estados e cidades brasileiras e até mesmo em outros países, como Marrocos e Líbano. A migração é um tema constante nas obras e pesquisas dele, que já rodou com a peça e também deu vida, na televisão, a um médico sírio que perdeu toda a família na guerra e veio para o Brasil.
Durante a entrevista concedida a O Diário, ele não precisou falar esta palavra para que ela surgisse na conversa: houve uma espécie de “chamado”, não necessariamente religioso, o levando para uma região de fronteira, onde há pessoas em situação de refúgio. Eduardo não sabe explicar, e talvez não seja necessário fazê-lo. Importante é que ele foi, a princípio não como ator, mas como ser humano, o que já bastava.
O mogiano ficou cerca de um mês por lá, antes da pandemia. E quando o lockdown começou, ele lembra, ‘Cartas Libanesas’ ganharia nova circulação, o que não aconteceu. O objetivo era estar próximo à fronteira ao mesmo tempo em que seria iniciada uma “entressafra de trabalhos”. Mas como diz o médico indiano Deepak Chopra, “a incerteza é a base da vida”.
Com a ameaça chamada coronavírus, Eduardo não podia subir em palcos. Mas manteve contato com as pessoas e agências com as quais costuma trabalhar, e passou a refletir. Não estava lá como ator, mas já que era um, o que poderia fazer para ajudar?
“Não sou médico, advogado, carpinteiro ou cozinheiro, que fazem coisas mais concretas. Sou ator. E descobri, depois de um mês, que eu poderia ouvir e escrever sobre as histórias”, conta ele, que acolheu a escrita e se dedicou também a dar aulas de cultura brasileira e português.
A experiência, que aconteceu de forma natural, agradou o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados, que o convidou a retornar no fim daquele ano. Dessa vez, oficialmente como ator, agora contratado. E o produto apresentado, em formato de duas peças curtas e também um documentário curta-metragem é composto pelas histórias coletadas anteriormente, que mostram a relação de abuso e exploração sexual de pessoas migrantes, com foco em mulheres, crianças e pessoas da comunidade LGBTQIAP+.
O filme é ‘Meu Corpo, Minha Fronteira’, que acaba de conferir ao ator mogiano o Prêmio Margarida de Prata, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como melhor curta-metragem. Karen Menatti e Flávio Barollo também participam das filmagens, roteiro e direção.
A produção conta com atores e não atores, migrantes e pessoas refugiadas para, a partir de relatos reais, sensibilizar e atentar para o seguinte: há não muitos quilômetros distante de quem está assistindo, existem pessoas sofrendo com a violação de direitos humanos.
“Gosto de gente, e quis contar isso assim, de gente para gente. Gosto muito de poder conciliar a profissão com trabalhos humanitários”, diz Eduardo, que cita uma pesquisa iniciada em 2009 e que vem rendendo frutos desde então. Inspirado pela história dos avós, que vieram do Líbano ao Brasil, ele criou Miguel Mahfouz, protagonista que, munido apenas de uma mala e um microfone, revela ter vindo ao Brasil para fazer “um pé de meia” e depois voltar ao país de origem, onde está a esposa grávida. Esse é o enredo de ‘Cartas Libanesas’, a peça que o levaria a uma novela na maior emissora de televisão do país, que o levaria a Roraima, que o levaria a ‘Meu Corpo, Minha Fronteira’. Está tudo ligado.
É claro que há diferenças entre os projetos. A pesquisa teve início no movimento migratório e agora fala sobre refúgio, sobre pessoas que têm a necessidade deixar os países de origem por questões políticas, por guerras, por catástrofes ambientas, para sobreviver.
Eduardo assumiu a missão de mostrar que refugiados “não são foragidos, não são foras da lei, não são ladrões”. São “pessoas que tiveram os direitos violados”, que não escolheram esse destino, que não tiveram outra opção a não ser tomar esse caminho.
Em histórias como a do “menino Sebastian”, ele conta, que “foi interiorizado para Curitiba”, há importantes aprendizados sobre questões como “xenofobia, preconceito racial, LGBTfobia, sexismo e outras”.
Poder mostrar isso em um espetáculo e em um filme é o que abre um sorriso no rosto de Eduardo, que viu in loco cenas que não se apagam de sua memória. E sendo assim, decidiu trazer para a região onde habita e mora um recorte desta realidade, algo que “muita gente nem sabe”.
O artista se estabelece, portanto, como um “intermediário destes mundos”, com a preocupação moral e artística de “sensibilizar o olhar do público” sobre uma “realidade que não está distante”. E nesse sentido, o trabalho não acaba aqui.
“Quando as pessoas assistirem ao filme, que possam sair pensando nas histórias e pensar no que aconteceu. com elas próprias. Vejo que tenho possibilitado sementinhas dessa reflexão”, encerra Eduardo, que quer colocar o filme no circuito de festivais, promover a conversa, olhar no olho das pessoas.
E este mesmo Eduardo não dá sinais de cansaço, e com exclusividade informa a O Diário estar preparando uma nova peça, que deve estrear em 2023. O novo texto se debruça sobre outra questão atual e vista em todo o mundo: a desigualdade social.
MUITAS VOZES, UMA LUTA
“Os migrantes e os refugiados (…) não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem”. A frase é de Papa Francisco e está em destaque no site do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMr Brasil).
Muito desta bagagem está exposta no documentário curta-metragem ‘Meu Corpo, Minha Fronteira’, produzido, roteirizado e filmado por Eduardo Mossri, Karen Menatti e Flávio Barollo, parceiros artísticos de longa data. Sensibilizados com o tema, eles decidiram “juntar vozes no combate da xenofobia, sexismo, a homofobia e a todas as formas de exploração e abuso sexual”.
Para tanto, em parceria com a SJMR Brasil e o setor de proteção da Plataforma R4V, produziram o filme, que faz parte do programa PSEA (Proteção contra Exploração e Abuso Sexual).
A produção retrata relatos reais e fictícios de pessoas migrantes em diversas situações de abuso e exploração sexual, com enfoque principal nas mulheres crianças e pessoas da comunidade LGBTQIA+ migrantes e refugiados.
É possível assistir no canal do Youtube da SJMR Brasil. O link é https://www.youtube.com/watch?v=eFMRuwfF7Qg