Polícia de SP investiga esquema que enviou R$ 4 bilhões ao exterior com empresas fantasma
A Polícia Civil de São Paulo, em parceria com a Receita Federal, realizou, nesta quarta-feira (5), a Operação Fractal, que tem como alvo um esquema bilionário de envio de dinheiro ilícito do crime organizado ao exterior, através de lavagem de dinheiro com uso de empresas fantasma e operações com criptomoedas e operadoras de câmbio. Só […]
05/10/2022 12h17, Atualizado há 689 meses
A Polícia Civil de São Paulo, em parceria com a Receita Federal, realizou, nesta quarta-feira (5), a Operação Fractal, que tem como alvo um esquema bilionário de envio de dinheiro ilícito do crime organizado ao exterior, através de lavagem de dinheiro com uso de empresas fantasma e operações com criptomoedas e operadoras de câmbio. Só do ano passado para cá, os investigadores identificaram movimentações financeiras de mais de R$ 4 bilhões da quadrilha, da qual fazem parte o tráfico de drogas e contrabandistas de produtos importados.
O inquérito revelou que até ser remetido para fora do país pelos criminosos, sobretudo por meio de operações com criptomoedas, o dinheiro passa por dezenas de empresas suspeitas, estruturadas em níveis que, comparam os investigadores, se assemelham a um fractal – figura geométrica dividida em várias partes iguais. Foram cumpridos 52 mandados de busca e apreensão contra suspeitos de envolvimento no esquema, nesta quinta, em grande ação que contou com 200 policiais e 100 fiscais da Receita. Ainda não há informação sobre presos.
Os investigadores explicam que tratam-se de empresas que teoricamente atuam em várias áreas, que vão desde serviços odontológicos, gravação de som e de edição de música, filmagem de festas e eventos, a administração de obras, serviços de pré-impressão, comércio varejista de mercadorias em geral, manutenção e reparação de máquinas e equipamentos, intermediações comerciais e lavanderias. Segundo a polícia, algumas delas, apesar de se denominarem como “grupo empresarial”, possuem atividades completamente diferentes, e até titulares diferentes, que não tem qualquer ligação com as outras empresas.
De acordo com a polícia, o esquema serve, principalmente, aos interesses do crime organizado, seja às facções criminosas, aos contrabandistas de produtos importados, ou a qualquer um que necessite remeter valores ilícitos ao exterior, como empresas sonegadoras de tributos.
Padarias e mercadinhos falsos
As investigações da Receita Federal tiveram início quando foi constatado que empresas “noteiras” transferiam dinheiro decorrente do lucro da sonegação para operadoras de turismo. Posteriormente os valores passaram a ser remetidos para empresas de “importação e exportação”, que não possuíam qualquer existência material.
As chamadas “noteiras”, explica a Receita, são empresas de fachada, em nome de “laranjas”, criadas para emitir notas fiscais falsas utilizadas principalmente para sonegação fiscal. A carga tributária dos reais beneficiários é desviada para essas empresas, que normalmente possuem ciclo de vida curto e não pagam tributos.
A descoberta levou os fiscais, então, até as empresas de importação e exportação. Foi constatado que essas companhias, que são inúmeras, sempre remetiam os valores recebidos para empresas operadoras de criptoativos. Estas, por sua vez, remetiam este dinheiro para corretoras de câmbio, a fim de realizar operações com criptomoedas.
Um fato comum a essas empresas de importação e exportação, narra a investigação, é o recebimento de dinheiro de diversas fontes que estão espalhadas por todo território brasileiro, muitos desses depósitos feitos em espécie e de forma fracionada. Também foi identificado o recebimento, em valores maiores e feitos por transferências bancárias, de empresas que atuam no comércio de produtos populares importados, sejam eles roupas, produtos eletrônicos e diversos outros artigos que são comercializados em centros populares. Outro fato identificado, comum a diversas dessas empresas de importação e exportação, é o recebimento de elevadas quantias de padarias e mercadinhos.
Os investigadores afirmam que os valores de padarias e mercadinhos que constam no esquema estão relacionados ainda ao comércio ilegal de ticket alimentação, que financia o crime organizado. Dinheiro oriundo do tráfico de drogas, por exemplo, recebido em espécie, é “transformado” em cartões de ticket alimentação, pela compra, em espécie, do ticket alimentação do trabalhador. Esses tickets são posteriormente debitados em padarias e mercadinhos fictícios que transferem esses valores para as empresas de importação e exportação.