Direto do Pantanal: onça ‘politicamente incorreta’ faz muito mal para veganos
Uma onça pintada e seu tiro certeiro deixaram nervos de aço no chão. Tudo aconteceu por conta de uma foto rara. Apaixonado por fotografia, o estudante João Pedro Salgado, de 22 anos, flagrou, no último sábado (8), um momento único no Pantanal. Ele, que tinha viajado após ganhar um concurso de fotografia, teve a oportunidade […]
12/04/2022 16h13, Atualizado há 689 meses
Uma onça pintada e seu tiro certeiro deixaram nervos de aço no chão. Tudo aconteceu por conta de uma foto rara. Apaixonado por fotografia, o estudante João Pedro Salgado, de 22 anos, flagrou, no último sábado (8), um momento único no Pantanal. Ele, que tinha viajado após ganhar um concurso de fotografia, teve a oportunidade de ficar a apenas 15 metros de uma onça-pintada exatamente no momento em que ela deu o bote numa capivara que mergulhava no rio. Restou a ele apertar forte o disparador de sua Canon t100. João Pedro tinha sido levado para dentro de um dos maiores ecossistemas do país por guias turísticos de uma ONG ambiental que há mais de 10 anos atua na região. Todos ficaram de queixo caído com o feito do rapaz. Mas a surpresa maior seria a reação das pessoas nas redes sociais que ficaram divididas depois que a foto foi publicada: de um lado, os que elogiaram o artista e a beleza natural do momento e, do outro, os que criticaram com mais ou menos fúria as imagens violentas. As queixas não pouparam nem a onça-pintada que, “politicamente incorreta”, devorou a capivara.
– Eu fiquei em estado de negação quando fiz a foto, não acreditava, estava em choque. Embora o local tenha uma alta taxa de avistamento de animais de grande porte, algo em torno de 98%, a gente sempre pode dar azar e eu tinha pouco tempo de viagem. Quando cheguei, a onça estava paradinha e, de repente, em menos de um minuto, saltou. Eu imediatamente comecei a fotografar. Ela pulou sobre alguma coisa na água que depois soubemos se tratar de uma capivara. É um registro bem raro embora seja uma rotina na vida selvagem. Era meu sonho fotografar uma onça-pintada – conta João Pedro que se dedica a fotografia há sete anos.
A polêmica chegou com a popularidade que a imagem do predador foi ganhando visualizações rapidamente. João Pedro era conduzido por dois guias locais da Onçafaria, entidade voltada para a defesa do meio ambiente em Mato Grosso do Sul. A ONG havia premiado o estudante com um safári depois que ele ganhou um concurso de foto. O flagrante premiado também foi um banquete: uma serpente comendo um sapo, em Macaé, no Rio de Janeiro. No oitavo período de biologia do campus da UFRJ de Macaé, João Pedro observa que a repercussão do “bote” da onça reflete o atual descolamento entre homem e natureza: “estão cancelando a onça-pintada por almoçar”, escreveu, entre bem-humorado e perplexo, logo após as primeiras críticas. Ele acredita que esses registros (que também podem ser vistos em @joao.pedro.salgado), entretanto, têm o papel de nos reconciliar com o meio ambiente.
– Como estou nas redes sociais há algum tempo tratando do tema, eu já esperava alguma reação assim, mas não imaginei tantas e tão intensas. Foram mais de 2 mil comentários e mais de nove milhões de visualizações. É normal alguns posicionamentos inesperados. Mas teve gente comparando o comportamento da onça ao de um assassino – espanta-se João Pedro, que não deixou de se divertir com a situação, publicando, por exemplo, uma montagem de uma onça com um prato de salada e a legenda “Perdeu tudo, teve que virar vegana”. E uma selfie com uma capivara ao fundo em que avisa aos críticos que já tinha feito as pazes com o animal após ter se desculpado por não tê-lo ajudado a se salvar da onça-pintada pantaneira:
– Engraçado que já repostei fotos de onças-pintadas comendo jacaré ou sucuri e nunca ninguém se manifestou – comenta o estudante, acrescentando que ninguém tem empatia com o jacaré ou com a cobra porque eles não têm o aspecto “fofinho” da capivara.
Entre os comentários recebidos por João Pedro, estão alguns bem raivosos como um internauta que ameaçou cancelá-lo por “achar bonito” o assassinato da capivara e o acusou de normalizar “esse tipo de coisa” só porque é algo natural. E outros mais moderados que o criticaram por não ter usado a ferramenta que permite aos internautas identificarem conteúdos sensíveis por exibirem imagens violentas, por exemplo. E, claro, muitos deboches dos que assistiram à polêmica sem se envolver emocionalmente, mas não perderam a chance de levantar a hipótese de indiciamento da onça por “homicídio doloso” e de sugerir que os predadores se tornem veganos para escapar do cancelamento.
O estudante, que responde pelo perfil Biodiversidade Brasileira, por onde passam macacos, aves raras e grandes predadores, fez questão, entretanto, de deixar também um recado sério. Ele chamou atenção para a incoerência das críticas destinadas à onça-pintada, um dos animais mais ameaçados na natureza. Num dos posts, ele “dá voz” à própria onça: “Quer dizer que eu sou um dos animais mais ameaçados de extinção no Brasil, não consigo finalizar todos os ataques que faço, quando estou com filhote que precisa de mim consigo menos ainda e, quando consigo alimento, as pessoas reclamam de mim?”.
A onça-pintada é um dos maiores felinos do mundo, atrás apenas do tigre e do leão, com peso que varia entre 50 e mais de 90 quilos. Muito frequente no continente americano, o animal está extinto em algumas partes do planeta e pode ser visto, com mais frequência, em florestas tropicais. Embora na fotografia da discórdia tenha sido a caçadora, a onça-pintada ainda costuma ser caça de fazendeiros e de agricultores na América do Sul.