Brasil tem deflação de 0,68% em julho, a 1ª desde maio de 2020
Puxado pela queda no preço dos combustíveis e da energia elétrica, o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) do IBGE registrou deflação de 0,68% em julho, segundo dados divulgados nesta terça-feira. É a primeira queda no indicador desde maio de 2020 (-0,38%), auge das medidas restritivas por conta da pandemia de Covid-19, e a menor […]
09/08/2022 15h30, Atualizado há 689 meses
Puxado pela queda no preço dos combustíveis e da energia elétrica, o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) do IBGE registrou deflação de 0,68% em julho, segundo dados divulgados nesta terça-feira. É a primeira queda no indicador desde maio de 2020 (-0,38%), auge das medidas restritivas por conta da pandemia de Covid-19, e a menor taxa registrada desde o início da série histórica, iniciada em janeiro de 1980.
A deflação veio dentro do esperado pelo mercado, mas se configura como um movimento atípico no país. Do início do plano Real até agora, foram registradas quinze quedas na variação mensal do índice de preços ao consumidor brasileiro.
Apesar do alívio na variação mensal, o índice de inflação do país segue em dois dígitos no acumulado de 12 meses, com alta de 10,07% até julho. No ano, a inflação acumulada é de 4,77%.
A expectativa dos analistas é de que o índice saia do patamar de dois dígitos em agosto, quando o IPCA deve registrar uma segunda deflação próxima de 0,2% em função da queda nos combustíveis. Além dos efeitos residuais do corte de 4,9% no preço médio da gasolina concedido pela Petrobras no dia 19 de julho, a redução de 3,88% no preço do combustível vendida pelas refinarias, anunciado no dia 29 de julho pela estatal, vai fazer o indicador ficar novamente no campo negativo.
— Passadas essas quedas nos combustíveis, voltamos ao padrão incômodo de inflação em torno de 0,5%, 0,6% por mês. Não é o que vimos no começo do ano, em que tudo estava subindo, mas é uma inflação ainda bastante alta — destaca Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, sobre a trajetória de preços nos meses seguintes, que projeta IPCA de 7,4% em 2022.
A boa notícia é que o resultado de hoje aponta para um ciclo de aperto monetário mais perto do fim, na avaliação de economistas. Isso porque houve uma desaceleração dos preços de bens industriais, o que reforça a chance de o Banco Central encerrar a série de aumentos da Selic nos atuais 13,75% ao ano.
Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital, explica que o retorno dos preços de commodities ao patamar pré-guerra na Ucrânia levou a uma desaceleração dos preços de bens industriais, gerando uma descompressão dos núcleos de inflação – medida que busca capturar a tendência inflacionária e é usada pelo Banco Central para calibrar a política monetária.
A preocupação que permanece no radar é com relação à alta de preços em serviços, já que os núcleos de inflação são compostos por serviços e bens industriais. Enquanto há um alívio nos preços dos produtos industrializados, a reabertura da economia ainda pressiona os custos dos serviços no país. Segundo o IBGE, a variação acumulada da inflação dos serviços em doze meses é de 8,87%. É a maior desde junho de 2014, quando foi de 9,20%.
— A inflação de serviços ainda é um desafio pela frente. Mas essa descompressão dos núcleos a partir de bens industriais vai permitir ao BC parar de subir juros, na minha avaliação. Já tínhamos visto essa sinalização clara na ata do Copom de que o BC quer parar e esse dado reforça esse cenário — explica Andrea.
Preços dos combustíveis e energia caem, mas comida fica mais cara
A queda no indicador em julho foi puxada pelos grupos Transportes e Habitação, que recuaram 4,51% e 1,05%, respectivamente, e incluem itens cujos preços são administrados, como gasolina e energia elétrica residencial. Os preços da gasolina caíram 15,48% e os do etanol, 11,38%, segundo o IBGE. Somente a gasolina contribui com -1,04 ponto percentual no índice do mês. Também foi registrada queda de 5,67% no preço do gás veicular.
A redução dos preços dos combustíveis e da conta de luz ocorreu por algumas razões, sendo o principal fator comum aos dois o corte de impostos sobre serviços considerados essenciais (combustíveis, energia elétrica e telecomunicações), aprovado pelo Congresso a poucos meses da eleição.
A inflação era um dos principais obstáculos identificados pela equipe que trabalha na reeleição do presidente Jair Bolsonaro, levando o presidente a lançar mão de mecanismo para conter o avanço dos preços.
Também puxou para baixo o preço dos combustíveis o corte de R$ 0,20 por litro nas refinarias pela Petrobras, anunciado no dia 19 de julho e posteriormente repassado às bombas dos postos. No caso da energia elétrica, os descontos concedidos na conta de luz por dez distribuidoras, conforme determinado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), também ajudaram a aliviar os preços.
Por outro lado, o grupo Alimentos e bebidas não permite trégua aos brasileiros, sobretudo às famílias mais pobres. Acelerou de 0,80% em junho para 1,30%, acumulando alta de 14,72% em 12 meses.
Só o leite longa vida subiu 25,46% em julho, ao passo em que os preços dos derivados do leite como queijo e manteiga avançaram 5,28% e 5,75%, respectivamente. Segundo o IBGE, a alta do leite e seus derivados se deve ao período de entressafra, que ocorre de março até outubro, e aos custos mais elevados do produtor com fertilizantes e outros insumos.
Não por acaso a alimentação em casa acelerou de 0,63% em junho para 1,47% em julho. Outro destaque foram as frutas, com alta de 4,40% no mês.
De acordo com André Braz, economista e pesquisador do Ibre/FGV, o que mais pressiona o orçamento das famílias mais pobres são os preços dos alimentos, onde não se observa até agora uma desaceleração convincente, mesmo com queda nos preços das commodities como soja, milho e trigo no mercado geral
— Não podemos falar de redução da inflação quando ela não está acontecendo para as famílias de baixa renda. Os alimentos, que são o grande desafio, estão com inflação real — diz o economista.
O grupo Vestuário, por sua vez, desacelerou de 1,67% para 0,58%. As roupas masculinas e femininas subiram em julho, mas as altas foram menores do que as registradas no mês anterior. Os calçados e acessórios também tiveram variação abaixo do mês anterior.
— A gente teve uma queda muito forte no preço do algodão, que é uma das principais matérias-primas da indústria têxtil, no final de junho — esclarece Pedro Kislanov, gerente da pesquisa, ao justificar a menor alta dos preços.
O grupo de Saúde e cuidados pessoais também mostrou perda de fôlego. Avançou 0,49% em julho após alta de 2,99% em junho, devido à variação inferior dos valores dos planos de saúde e à queda marginal dos itens de higiene pessoal. Já o grupo de despesas pessoais acelerou de 0,49% para 1,13% em junho.
Perspectivas
Economistas projetam IPCA negativo em agosto, em função da continuidade da queda dos preços administrados. Isso porque a Petrobras anunciou no final de julho duas reduções no preço da gasolina vendida pelas refinarias, o que deve chegar às bombas dos postos ao longo do mês de agosto.
Em setembro, porém, o indicador deve voltar a subir e ficar no campo positivo. O IPCA deve terminar o ano em 7,11%, de acordo com a mediana das expectativas do Boletim Focus. O resultado tira a inflação do patamar de dois dígitos (10,06%) registrados em 2021, mas bem acima dos 4,52% em 2020.
Para 2023, a projeção já sobe pela décima oitava semana consecutiva: analistas esperam alta de 5,36%.