Única técnica na elite abre mão de sonho da Superliga pelos filhos
O sonho de Kely Kolasco Fraga, medallha de bronze nos Jogos Olímpicos de Sydney-2000 com a seleção de vôlei, durou menos de três semanas. A ex-jogadora foi anunciada como treinadora do time de Curitiba para a Superliga Feminina 2021/2022, mas precisou abrir mão do sonho de estar na elite do esporte. Mãe solo de Kim, […]
25/10/2021 15h38, Atualizado há 688 meses
O sonho de Kely Kolasco Fraga, medallha de bronze nos Jogos Olímpicos de Sydney-2000 com a seleção de vôlei, durou menos de três semanas. A ex-jogadora foi anunciada como treinadora do time de Curitiba para a Superliga Feminina 2021/2022, mas precisou abrir mão do sonho de estar na elite do esporte. Mãe solo de Kim, de 13 anos, e Kiara, de 7, ela optou por ficar com os filhos e não mais treinar o time, uma vez que não conseguiu montar uma “estrutura confiável” para as crianças quando precisasse viajar.
Kely entraria para a história do esporte como treinadora de um time adulto. A última técnica da Superliga foi Sandra Mara Leão, no Uniara/Araraquara, em 2014/2015, seguindo os passos de Isabel Salgado, ex-Vasco e Flamengo.
— Este é um drama de tantas mulheres, né? — pontua Kely, que já treinava o time há cerca de três semanas: — Eu me sinto com o coração apertado por perder esta oportunidade, ainda mais num ambiente ainda machista, com pouca abertura para nós mulheres. Mas ao mesmo tempo sei que foi a decisão certa neste momento, em função das necessidades das crianças. É preciso ter coragem para abrir mão de uma oportunidade maravilhosa como essa. Estou em paz e creio que as portas se abrirão para mim novamente.
Ela conta que os dois filhos têm questões de saúde importantes e que precisam de cuidados específicos além de terapia. Kim é autista leve, e Kiara, hiperativa e com Transtorno Opositivo Desafiador (TOD). Assim, explicou que precisaria de uma estrutura “de confiança”. Os avós das crianças estão em Belo Horizonte.
— Eles têm perfis opostos, tomam medicação e precisam de atenção, paciência e carinho. Não é fácil lidar com comportamentos assim tão diferentes. Tentei montar uma estrutura com pessoas em quem confio, como meus pais e alguns amigos. Mas não foi possível. Meu pai tem 79 anos, tomou duas doses da vacina da Covid-19, mas perdeu um irmão, mesmo vacinado, para esta doença. Não poderia colocá-lo em risco e trazê-lo para cá. Não me perdoaria se algo acontecesse a ele. Ao mesmo tempo, entendi que a estrutura com os amigos não seria eficiente. Eles têm suas rotinas e filhos também — explica a técnica, que completa: — Não quis contratar serviço de babá, por exemplo, porque precisaria conhecer bem as pessoas. Então, esta decisão de deixar o time foi a possível, com dor no coração, mas foi a possível.
Kely diz que “não parou de chorar” desde que abriu mão do sonho de competir na Superliga, que começa nesta quinta-feira. Mas que, ao mesmo tempo, está “serena” com a opção que escolheu:— Essa era a oportunidade que eu pedi a Deus. eu me preparei para ela. Essas semanas com o time foram muito boas, criamos vínculos, o trabalho estava começando. E até estudava o rival de estreia no torneio… Mas quando se mexe na estrutura familiar, não dá… Não tinha como viajar para as partidas e deixar meus filhos. Eles são diferentes. Se eu continuasse seria ideal para mim, não para eles. O que eu poderia fazer?
A mineira Kelly jogou por cerca de 20 anos e conquistou o bronze na Olimpíada de Sydney, em 2000. Após se aposentar das quadras de vôlei em 2011, passou a atuar na formação de atletas em Resende (RJ). Iniciou sua carreira como treinadora do infanto juvenil em Resende, levando a equipe feminina ao Campeonato Estadual Carioca. Seguiu para Curitiba, onde foi técnica do Colégio Militar de Curitiba (CMC) e da AABB de Curitiba. Criou a escola Top Vôlei, de formação de atletas.
Foi Kely quem descobriu Mayany, central da seleção brasileira, uma das apostas do treinador José Roberto Guimarães para o próximo ciclo olímpico e que recentemente foi campeã sul-americana.
— Sempre fui muito aguerrida como atleta. Aproveitei todas as oportunidades que surgiram, mesmo sem ter tido facilidade. Neste momento, não tenho como aproveitar a oportunidade que me apareceu. Mas sei que ainda terei esta chance. Tenho conhecimento e capacidade. O Curitiba deixou as portas abertas, se compadeceu com a minha situação. Vou tentar viabilizar um caminho para mim. Acredito que tudo vem na hora certa — diz ela, esperançosa: — Quem sabe na temporada que vem?